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Causa democrática, gramática revolucionária

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28.10.2026

Duzentas mil pessoas desceram a Avenida da Liberdade a 12 de março de 2011. Ninguém as conduzia.

A manifestação tinha começado no Facebook, sem partido nem sindicato por trás. A convocatória dizia quem devia vir: desempregados, quem vivia com 500 euros por mês, bolseiros, falsos recibos verdes, pais, mães e filhos. Cada um trazia o seu cartaz e a sua razão. Havia gente de todas as cores políticas, da esquerda à direita, a gritar contra o mesmo teto. Não houve apelos à violência nem estátuas pintadas. Houve uma geração que disse que não aguentava mais.

Onze dias depois, o primeiro-ministro José Sócrates demitia-se. A avenida não derrubara o governo. Mas deu voz a uma geração.

Quinze anos depois, a rua voltou a ser palco. Começou no Porto, a 10 de outubro, chegou ao Rossio uma semana depois e, no sábado, 24 de outubro, segundo os organizadores, teria levado duas dezenas de milhares de pessoas do Marquês ao Rossio, a chocalhar molhos de chaves. É uma contagem da organização; a PSP acha-a exagerada. Na realidade, pouco importa.

A causa, essa, é na essência a mesma de 2011. Uma geração que não consegue arrendar um T1 está onde estava, em 2011, a geração que não passava dos 500 euros. Mudou o nome do muro, não a sua altura. E o muro impede-nos de ver a linha do horizonte; é como uma casa com vista para lugar algum. Discutir a legitimidade da causa será sempre discutir a coisa errada. Ter um futuro é tão legítimo hoje como era há quinze anos, e como foi para as gerações anteriores.

Legítimo, porém, não quer dizer simples. E o caso particular da habitação não se explica com um culpado; explica-se com camadas que se foram somando e agravando ao longo da última década. O país passou de mais de 100 mil casas concluídas por ano, no início do século, para uma década em que quase não se construiu, estando hoje perto dos 30 mil fogos por ano. Só entre 2021 e 2025, Portugal ganhou perto de um milhão de residentes, quase todos vindos de fora, sobretudo para a Grande Lisboa, e sem o tecido familiar que ajuda a amortecer o choque. O Banco de Portugal estima que faltam 300 mil casas; o sector da construção fala em 380 mil. Ao ritmo atual, são precisos pelo menos dez anos para fechar o buraco, e entre a decisão de construir e a entrega das chaves........

© Observador