O Ulisses a que temos direito
Pode parecer bizarro, mas dois poemas sobre as aventuras e desventuras de piratas e arruaceiros, envolvidos por uma multidão de deuses em guerra, formaram o pilar central da nossa civilização. Homero, ou o nome que se dá a uma tradição oral difícil de datar, compôs a Ilíada e a Odisseia. Deixemos de parte a discussão sobre a diferente autoria dos dois poemas e concentremo-nos em coisas mais básicas. Se a Ilíada é o poema sobre Ilium (Tróia), a Odisseia canta a epopeia de um homem, Odisseus – ou na forma grega importada para a cultura latina, Ulisses. Isto serve para clarificar que, nas sucessivas adaptações de Homero (a mais gloriosa, a de Virgílio) e nas sucessivas contestações (a mais poderosa, a de Platão), a designação Odisseia força-nos a confrontar a figura – a pessoa, a conduta, a personalidade, o destino – de Odisseus (Ulisses).
Agora chegou a vez de o mais brilhante realizador da sua geração, Christopher Nolan, apresentar a sua própria adaptação e interpretação da Odisseia – que é o mesmo que dizer de Ulisses. E não há como contornar a conclusão: o resultado é uma desilusão. Não porque o filme não seja visualmente poderoso, nem que Nolan seja incapaz de soluções narrativas interessantes ou de correcções bem pensadas de saltos inevitáveis no enredo homérico. A desilusão também não vem de equívocos cinematográficos absurdos, como o momento em que Ulisses, errando no mar Mediterrâneo por 10 anos para fazer distâncias relativamente pequenas, mal chega a Ítaca, lança-se ao mar para num ápice se pôr numa outra ilha, mais exactamente num templo, com vista a socorrer o seu filho Telémaco de uma emboscada dos pretendentes. É uma cena inventada, escusada e implausível, ainda que não seja essa a mácula que se interpõe entre um filme........
