Tenho esquizofrenia. E então?
Durante vinte anos, ninguém me soube dizer o que se passava dentro de mim.
Tinha 16 anos quando tudo começou. Não com vozes, nem com nada do que se vê nos filmes. Tudo começou com uma raiva que não tinha nome. Ansiedade constante, irritação que não desaparecia, uma zanga que sentia contra o mundo inteiro sem saber porquê. Achava que era uma fase da adolescência agravada pela morte da minha avó que aconteceu naquela altura. A minha família achava o mesmo. Só a minha irmã tentava chamar-me à razão e eu não a ouvia.
Nessa altura, logo num dos meus primeiros surtos, talvez o segundo, bati várias vezes com a cabeça no espelho do meu quarto, tomada por uma fúria que não conseguia explicar nem controlar. Não queria magoar os outros. Só a mim.
Aí passei a ir a uma psicóloga, que me dava sempre razão e que hoje sei que em nada me ajudou. Depois fui a um psiquiatra que me medicou intensamente, mas que nunca chamou os meus pais, nunca lhes explicou o diagnóstico, nunca os envolveu. Infelizmente nem todos os médicos são capazes. Passei de uma jovem desatinada e zangada para uma jovem “drogada”, sem forças, deitada no sofá dias inteiros, incapaz de me mexer. Por dentro continuava a ser devorada por uma irritação constante. Ir à escola tornou-se um esforço monumental.
O tempo foi passando. Eu achava que estava a melhorar e a minha família e amigos viam-me cada vez pior. Essa distância, entre o que eu sentia e o que os outros viam, foi a parte mais difícil da minha história. Isolou-me do mundo e da vida que gostava de ter........
