Trump e o Estado da (des)União
O que aconteceu ao presidente que há nove anos começou o seu primeiro mandato a falar de união e cooperação bipartidária? O Estado da União, oficialmente o mais longo da história americana, respondeu a essa pergunta de forma inequívoca: nesta América, mais do que um objetivo inatingível, a União tornou-se algo aparentemente indesejável.
O contraste com o primeiro discurso de Trump ao Congresso em 2017 é significativo. Nesse primeiro State of the Union, ouvimos a retórica da procura por consensos, por cooperação entre republicanos e democratas nos assuntos prementes. Era talvez performativo, mas a performance importava, porque sinalizava que a união nacional ainda era um valor a perseguir, mesmo que apenas no discurso. Agora, nem isso. Das poucas vezes que Trump se dirigiu à oposição, limitou-se a insultos diretos, chamando-lhes malucos, lunáticos, acusando-os de querer destruir o país. Nenhuma tentativa, nem sequer simbólica, de apresentar uma visão partilhada para a América.
O discurso foi exclusivamente direcionado à base republicana e, mais importante, aos contestatários dentro do próprio partido que Trump tem particular preocupação em manter alinhados antes das midterms que se aproximam. E fê-lo por um método muito específico: através da demonização do “outro lado”, dispensando qualquer política concreta ou visão para o futuro. As maiores ovações da noite não vieram quando Trump falou de economia ou de propostas legislativas. Vieram quando insultou comunidades inteiras, quando pintou setores da sociedade como inimigos quase míticos que ameaçam a própria existência da América.
É aqui que a ironia se torna impossível de ignorar. Durante anos, os Republicanos identificaram as identity politics como o grande cancro da política americana, algo que a esquerda radical usava para dividir o país e semear o caos. Mas o que vimos no discurso de Trump foi precisamente isso: identity politics na sua forma mais pura. A diferença é apenas quem é identificado como inimigo. Os testes de puridade, as exigências de lealdade incondicional ao movimento, o expurgar de vozes dissidentes tem aumentado exponencialmente neste segundo mandato, afetando agora não só da ala centrista do GOP mas até figuras como Marjorie Taylor Greene ou Thomas Massie, antes vistos como aliados de Trump. O partido tornou-se monolítico, definindo-se por quem está dentro e quem está fora, por quem é leal e quem é traidor.
A forma como todos os republicanos aplaudiam roboticamente cada frase minimamente coerente do Presidente ilustrou bem até que ponto esta transformação está completa. Não havia espaço para hesitação, para dúvida, para qualquer sinal de que poderiam não concordar inteiramente. Era lealdade total ou exclusão. Os Republicanos tornaram-se aquilo que juravam combater, uma “direita woke”, definida quase exclusivamente por uma identidade tribal.
O único momento de verdadeira união durante todo o discurso foi, paradoxalmente, a celebração da equipa masculina de hóquei. Foi um momento revelador: demonstrou que o espírito da América não mudou fundamentalmente, que ainda existe a possibilidade de orgulho nacional partilhado. Mas também demonstrou que a política se tornou completamente incapaz de aceder a esse sentimento. Só algo externo à política, no caso o desporto, conseguiu gerar consenso genuíno.
Durante as quase duas horas de discurso, Trump sinalizou claramente que vai atacar as midterms através da economia e da imigração. Em ambos, porém, a estratégia revela as mesmas fragilidades.
Na economia, Trump está a cometer exatamente o mesmo erro que condenou Biden e Harris. Perante eleitores insatisfeitos com a sua realidade económica, com dificuldades concretas no custo de vida, o presidente prefere confrontá-los e dizer-lhes que o que sentem está errado, que as dificuldades são fictícias porque a economia está “roaring like never before”. Gasta capital político a defender o indefensável: uma subida efetiva de impostos sobre consumidores americanos através de tarifas, algo que deveria ser anátema para qualquer republicano. Ver um presidente republicano a comprar uma guerra com o Supremo Tribunal para poder manter essa subida de impostos seria até cómico se não fosse trágico.
Trump bem tenta apresentar os números do Dow Jones e do S&P 500 como símbolos de vitória, mas isso apenas reforça a perceção de que esta administração privilegia Wall Street e os multimilionários, em detrimento do americano comum. E quando as pessoas sentem o custo de vida a aumentar mas ouvem que a economia está ótima, a conclusão inevitável é que essa prosperidade não é para elas.
Na imigração, foi notável a completa ausência de qualquer referência ao ICE ou às operações de deportação que têm gerado controvérsia. Defrontado com a crescente impopularidade da sua política migratória (incluindo casos de cidadãos americanos mortos pelo ICE e deportações ilegais), Trump refugiou-se no velho fearmongering. Pintou comunidades de minorias como o grande inimigo, apresentou ameaças existenciais vagas, mas evitou cuidadosamente qualquer discussão sobre as consequências concretas das suas políticas e sobre a forma como têm afetado o dia-a-dia de muitos americanos.
É uma estratégia clara: apresentar a política como uma guerra existencial onde qualquer meio é justificado porque o inimigo representa uma ameaça à própria sobrevivência da nação.
O problema é que esta estratégia está condenada ao fracasso, e as eleições de 2024 explicam porquê. Sim, Trump ganhou em 2024. Mas ganhou como candidato da oposição, enfrentando uma administração profundamente impopular marcada pela crise inflacionária pós-pandemia. Ganhou porque os eleitores votam com o bolso e Biden não conseguiu convencê-los de que a economia estava bem quando eles sentiam o contrário. A estratégia de “o outro lado é perigoso” até foi tentada pelos democratas em 2024 quando apresentaram Trump como ameaça existencial à democracia, mas falhou precisamente porque os eleitores estavam mais preocupados com o custo da gasolina e dos bens alimentares do que com ameaças abstratas.
Agora Trump está no poder. É ele quem tem de responder pelos resultados económicos. E a sua resposta, aparentemente, é dizer aos eleitores que estão enganados sobre as suas próprias dificuldades enquanto defende políticas que agravam essas mesmas dificuldades. A sua resposta é esperar que a demonização do tal “outro lado” seja suficiente para os fazer esquecer a realidade que vivem diariamente.
Não será. Os eleitores demonstraram repetidamente que não se mobilizam apenas porque um lado diz que o outro é perigoso. Mobilizam-se quando sentem que a sua vida está a melhorar ou quando acreditam que pode melhorar com uma mudança. Trump está a apostar que pode vencer as midterms através de pura teatralidade, de conflito constante, de identity politics que mantêm a base inflamada. Mas uma base inflamada não chega quando o eleitorado mais alargado percebe que, por detrás do teatro, a sua qualidade de vida não melhora.
Trump demonstrou que prefere continuar a apostar na polarização a moderar-se ou apresentar uma visão minimamente unificadora. É uma escolha que até pode satisfazer os fiéis, os Stephen Millers que pululam os corredores da Casa Branca, mas que custará ao partido nas midterms. E abre espaço aos democratas para se apresentarem como a alternativa. Não apenas como um mero anti-Trump, que já provou ser insuficiente, mas como uma escolha positiva que oferece soluções concretas para problemas reais.
Durante décadas, os presidentes americanos mantiveram pelo menos a pretensão de falar para o país inteiro. Mesmo quando governavam de forma partidária, preservavam a ficção de uma unidade nacional que transcendia divisões políticas. Essa pretensão era, sobretudo, um reconhecimento implícito de que o poder presidencial assentava numa legitimidade mais ampla do que uma base eleitoral.
O que este discurso mostrou foi o abandono dessa pretensão. Trump não tentou persuadir, não tentou alargar, não tentou sequer simular inclusão. Falou exclusivamente para os seus. É sintomático de um movimento que substituiu políticas por performance, visão por vitimização, propostas por provocações. De um movimento que depende da existência permanente de adversários para mobilizar, que substituiu governação por polarização contínua.
O que está em jogo, portanto, parece ser uma transformação na própria natureza da presidência americana. Quando o ocupante do cargo deixa de se ver como presidente de todos para se assumir como líder de uma facção, quando a linguagem da unidade nacional é substituída pela retórica do confronto perpétuo, dissolve-se também a própria possibilidade de uma esfera pública partilhada. Se esta transformação é reversível ou não, dependerá de mais do que um ciclo eleitoral. Mas o precedente já foi estabelecido.
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