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#DiasQueSeAguentam

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28.01.2026

Benilde Castro trabalhava numa fábrica têxtil, uma das muitas que nos anos sessenta surgiram ao longo do médio Ave. Acompanhando as tortuosidades de um rio, por entre prados e lugarejos bucólicos, as “têxteis” do médio Ave surgiam como “catedrais” majestosas, promessas de um futuro auspicioso. Existiam nos sonhos dos adolescentes, onde brotavam primeiro com um devir meloso e inevitável, para mais tarde se revelarem numa armadilha inescapável.

A industrialização chegou na primeira metade do século XX, sem ruptura, sem transformação. Foi como se a região tivesse saltado de um tempo antigo, feudal, feito de dependências e obediências silenciosas, para outro apenas mais ruidoso, mas envolto nos mesmos sacrifícios e sonhos frustrados. Não houve revolução, apenas substituição. Os antigos senhores deram lugar aos patrões, o campo às fábricas, mas a submissão e a fé, essas, mantiveram-se intactas.

E o seu número foi crescendo. Primeiro um par delas, depois uma mão cheia, e mais tarde, um pouco antes da globalização, proliferavam como “cogumelos”. Era uma economia pujante, viril, mas alicerçada numa mão de obra a que ofereciam sonhos e pagavam com a realidade.

Durante décadas, tudo girou em torno de uma única atividade de baixos salários e, por ser tão fácil, sem necessidade de inovação. O país, carente de divisas, dependia das têxteis, e estas dos baixos custos do trabalho. Era um ritual de repetição, um engodo sem fuga, onde a frustração de sonhos gerava assimetrias, mas permitia o equilíbrio das contas públicas.

No meio da inevitabilidade, o têxtil tornara-se a economia, a identidade e o limite. Sem diversificação, sem alternativas, o futuro repetia-se de geração em geração, como um ofício herdado sem vocação. As escolas ensinavam apenas o necessário para garantir uma mão de obra disciplinada. Era uma educação que preparava sem libertar. A cultura reduzia-se a rituais previsíveis, a festas marcadas no calendário e às reuniões familiares em torno de uma lareira sempre ligada como forma de esquecimento. Aprender mais seria inútil, talvez perigoso.

Na década de noventa, quando esta história acontece, Benilde aproximava-se dos cinquenta anos. O seu corpo guardava a memória de décadas passadas entre o ruído constante dos teares, o pó suspenso no ar e os turnos que começavam ainda antes do amanhecer. Havia nela um cansaço, plantado quando o trabalho deixou de ser escolha e passou a ser condição de sobrevivência. O ímpeto económico da região tantas vezes celebrado e a sumptuosidade de alguns, nunca se traduziu em melhoria nem no alento de quem por ali sobrevivia.

A vida de Benilde foi, desde o início, marcada pela resignação. Cresceu numa família de nove irmãos, num espaço onde o pouco se repartia e o nada sobrava disperso. Aprendeu cedo que pouco podia esperar, que o presente raramente faz promessas e o futuro ainda mais raramente as cumpre. Na casa materna, o afeto não faltava, mas diluía-se na necessidade e numa escassez que silenciosamente aconselhava – quem pudesse, saía, quem ficasse, adaptava-se.

Casou muito nova, ainda não tinha dezoito anos. Não houve romance nem hesitação, apenas a convicção prática de que o casamento era uma saída, talvez a única. Frangolho Castro, quinze anos mais velho, trazia consigo uma vida feita e posses que, à época, eram sinónimo de segurança. Terrenos dispersos, bouças herdadas de um tio religioso, eram bens, pedaços de terra que lhe prometiam um respirar sem sufoco. Era uma forma ingénua de estabilidade, mas para Benilde isso bastou.

Frangolho Castro nunca foi um bom marido. Era rude, sovina, quase miserável. Mas providenciava mais do que Benilde alguma vez tivera. Bebia em excesso, e de excessos se revestia o comportamento. Quando falava fazia-o sempre com aspereza. O ciúme acompanhava-o como uma sombra constante. Não um ciúme de amor, mas de posse, de desprezo. Um hábito feudal, medieval em que se confundia razão com autoridade e esta com força. As ações violentas repetiam-se dentro de casa, sempre longe de olhares exteriores, sempre numa lógica de domínio e subjugação onde o silêncio funcionava como proteção e escudo.

Da relação nasceram dois filhos. Primeiro Carlos, depois Eduarda, a mais nova. O nascimento de cada um trouxe uma alegria contida, cautelosa, como se a felicidade tivesse de ser medida para não despertar desordem. Porém, nunca se permitiu a grandes ilusões. Os filhos seriam responsabilidade sua, o fruto das suas entranhas, o seu grito de resistência e de vitória. Aprendeu a amar com prudência, em silêncio. Amou cada gesto, cada cuidado. Amou calada, mas na justa medida que se permitia. Lentamente, com os olhos no amanhã, depositou nos filhos os sonhos e ternura que perdera e as expectativas que nunca tivera.

Com eles,........

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