“Mas afinal és de esquerda ou de direita?”
É o anoitecer de quarta-feira. No recato de um modesto café – mesmo ali ao lado da Universidade Católica – na companhia de um dos meus confrades, que travo o meu mais recente duelo. Em jeito de repto à ortodoxia de alguns comentadores “especialistas”, assinalei a inexistência de uma disposição conservadora no nosso espetro político, ao que fui interpelado com a interrogação que diz respeito ao título desta crónica: “Mas afinal és de esquerda ou de direita?”.
Não deixa de ser paradoxal que seja precisamente na conjuntura dos dias de hoje – um ecossistema altamente ruidoso radicado na histeria das descrenças e polarizações – que mais carecemos do projeto conservador. Seria, portanto, profícuo demarcarmo-nos das erróneas classificações “conservadoras” feitas a partidos e movimentos. Os autoproclamados guardiões da “tradição”, chegados à Assembleia da República em 2019, tão-pouco estão perto de suprir o espaço deserto da disposição conservadora. Visceralmente, desconsideram uma herança (que em coro paladino dizem defender) portadora de uma forma de comportamento, de estar e de fazer política. Este entendimento da política, exíguo nos dias de hoje, encontra-se cristalizado na classe política mais desqualificada dos últimos anos.
O ingrediente cético do conservadorismo rejeita as certezas absolutas e sugere uma desconfiança em torno do insuflar das crenças e paixões dos indivíduos. Reconhece o perigo latente da mobilização dos ressentimentos sociais, despreza o culto da personalidade e suspeita das qualidades quase místicas de um líder que se apresente com uma missão messiânica. Trata-se de uma doutrina posicional que, de modo algum, deve ser confundida com um saudosismo ao passado ou um atavismo, e muito menos com o espartilho de uma ideologia. O temperamento conservador jamais poderá conformar-se a uma panaceia universal negligenciando as exigências e vicissitudes de uma determinada situação. Não há tal coisa como uma resposta automática para tudo; a isso chama-se um empobrecimento e uma falsificação da própria realidade.
Conjeturo que a interpelação que me foi feita no decurso da nossa discussão acirrada – motivo desta crónica – pertence a um vocabulário político que procura esvaziar toda a complexidade intrínseca à........
