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O véu da violência

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13.02.2026

No Irão, a opressão das mulheres não é simbólica nem abstrata. É física, sistemática e brutal. Não se limita a leis injustas ou códigos morais retrógrados; manifesta-se em tortura, detenções arbitrárias, violações sob custódia, homicídios cometidos ou tolerados pelo Estado. A repressão não é um desvio do regime, é o seu método.

O fundamentalismo islâmico, quando convertido em poder político, transforma a religião num instrumento de domínio total. Não é a religião que oprime; é a sua captura por elites que a instrumentalizam para controlar a vida privada, a liberdade individual e, sobretudo, o corpo das mulheres. No caso do regime iraniano, o corpo feminino torna-se território controlado pelo Estado, policiado nas ruas e punido com violência quando ousa resistir. O véu obrigatório não é um símbolo cultural; é um mecanismo legal de coerção, imposto sob ameaça de prisão, agressão física e exclusão social.

Desde a morte de Mahsa Amini em 2022, o regime iraniano intensificou a repressão. Nas últimas semanas, várias organizações internacionais de direitos humanos têm denunciado uma escalada de violência extrema contra mulheres – e até crianças – detidas: relatos de violações em centros de detenção, agressões sexuais como forma de castigo, mortes discricionárias perpetradas pelas forças policiais e execuções após julgamentos sumários. Não se trata apenas de silenciar protestos, isto é quebrar mulheres pelo terror.

Há jovens mortas nas ruas, corpos devolvidos às famílias com sinais claros de tortura, detenções acompanhadas de ameaças de violência sexual para forçar confissões ou intimidar outras mulheres. Esta violência não é acidental nem excecional: é violência sexualizada como arma política.

O regime teocrático iraniano não é herdeiro da nação Persa – é a sua negação. A chamada “República Islâmica” impôs-se contra uma civilização milenar marcada por pluralismo cultural, produção intelectual e tradição de convivência e tolerância. O que governa hoje o Irão não é a vontade popular, mas uma cleptocracia armada, sustentada pela violência institucional da Guarda Revolucionária e pela legitimação de um corpo clerical que não presta contas ao povo. Em 47 anos, este regime não trouxe libertação nem prosperidade: produziu repressão interna, empobrecimento sistemático e exportação de terrorismo, guerra e instabilidade para todo o Médio Oriente. Não é o povo iraniano o culpado, é o regime que o oprime.

Nada disto pode ser relativizado como “diferença cultural”. Cultura não explica violações. Tradição não justifica assassinatos. Religião não legitima tortura. Quando um Estado prende, viola e mata mulheres por desobedecerem a um código moral imposto, abandona definitivamente o campo da soberania cultural e entra no domínio do crime contra a dignidade humana.

É neste ponto que o silêncio de parte da esquerda portuguesa se torna moralmente indefensável. Uma esquerda tão vocal a denunciar todas as formas de violência patriarcal no Ocidente, mas que hesita quando essa violência assume a forma de teocracia. Uma esquerda que fala de direitos humanos universais, mas que se cala quando mulheres são violadas e assassinadas por um regime que se protege atrás da religião. Uma esquerda que padece de uma cegueira seletiva relativamente aos números que mostram o genocídio a que o povo iraniano tem sido sujeito nas últimas semanas.

Esse silêncio não é prudência. É incoerência ética e moral. Os direitos das mulheres não podem ser suspensos por conveniência ideológica, nem subordinados a discursos de relativismo cultural.

Criticar o fundamentalismo islâmico não é atacar muçulmanos. É recusar que uma interpretação religiosa seja usada para legitimar leis que permitem espancar, violar e matar mulheres. A liberdade religiosa exige escolha; o que existe no Irão é imposição armada de uma moral de Estado.

As mulheres iranianas não pedem solidariedade abstrata. Pedem proteção, voz e liberdade para viver sem medo. Quando democracias e forças políticas que se dizem progressistas se calam perante esta violência, não estão a respeitar culturas, mas sim a normalizar a barbárie.

Há momentos em que a neutralidade não é equilíbrio. É ser-se cúmplice.

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