Estamos a censurar o sucesso de Montenegro?
António, nome fictício, tinha umas 20 ovelhas que cuidava nos intervalos do seu emprego. Um dia, chega lá, e restavam três. Tinham sido roubadas. Viu as marcas dos pneus pelo terreno. Ali perto, um armazém tinha videovigilância e as imagens foram-lhe entregues. Foi à polícia fazer queixa, entregou as imagens em que se via claramente um grupo de homens, numa carrinha, a roubarem as ovelhas. A polícia disse que conhecia os ladrões, sabia onde moravam e até identificou o condutor dizendo que nem carta tinha. Imaginaríamos nós, pouco versados nos meandros da justiça, que a polícia iria ao local e rapidamente se deslocaria ao sítio onde sabia que moravam os ladrões. Pois não é assim. Foi dito a quem foi roubado que nada podia fazer, tinha de esperar pelo juiz. E que nem valia a pena ir ao local. Naturalmente revoltado, António correu o risco de ser ele o preso, por dizer que a polícia só se preocupava com multas.
Maria e Luísa, nomes fictícios, são enfermeiras de um centro de saúde. Acompanham uma população envelhecida em domicílios, que conseguem fazer duas vezes por semana à tarde. Porque não fazem mais? Porque há apenas um carro para vários centros de saúde e a equipa tem de estar sistematicamente a batalhar para ter acesso à viatura. Como todos nós, também sabem que proliferam “carros de trabalho” por essa administração pública fora, para directores, administradores ou apenas vogais
Não são histórias inventadas. São experiências vividas por essas pessoas que, sim, têm emprego, poderão até ter tido um bom aumento do seu poder de compra, nestes anos em que Luís Montenegro é primeiro-ministro. Mas aquilo que vêm do seu ponto de observação é um país em colapso, onde parece que se pode roubar sem castigo e onde a hierarquia de valores e prioridades dá sinais de estar virada do avesso.
Corremos com isto o risco de validar a mensagem do primeiro-ministro nos 50 anos da festa do Pontal. Estamos focados em coisas que “correm menos bem” em vez de nos concentrarmos no que, nas suas palavras, “corre muito bem”. O primeiro-ministro esquece-se de alguns........
