Carta aberta às vítimas da esquerda e do Chega
A modernidade ocidental, ao consagrar o indivíduo como o artífice supremo do seu próprio destino, legou-lhe o peso absoluto da responsabilidade, uma carga existencial outrora desconhecida. Num mundo desprovido de desígnios providenciais aparentes, onde o indivíduo é soberano, o fracasso pessoal deixa de ser uma provação divina para se tornar um veredicto condenatório sobre a sua própria competência, inteligência ou valor moral. Perante a crueza desta humilhação existencial, a psique humana, ciosa da sua autopreservação, reage não através da introspeção, mas sim da projeção. A incapacidade de o ser humano se confrontar com o abismo das próprias limitações ou a contingência trágica da sorte, constitui a génese das mais poderosas construções ideológicas e teológicas da história humana.
A tese fundamental que aqui vou tentar demostrar, propõe que o sucesso perene das ideias políticas populistas, independentemente da sua sofisticação teórica ou do seu posicionamento no espetro ideológico, reside na sua eficácia enquanto mecanismos de externalização da culpa. Antes de serem programas económicos ou propostas de organização social, as ideologias populistas operam como sofisticados amortecedores psicológicos, cuja função primária é localizar o mal num agente externo, absolvendo o sujeito da autoria dos seus próprios insucessos.
O Diabo e a Inocência Primitiva
Para compreender a mutação secular deste fenómeno, é imperativo analisar o seu arquétipo original. Na teologia abraâmica é a figura do demónio que encarna a externalização da culpa. Agostinho de Hipona mostrou-nos através do livre-arbítrio, que somos os únicos........
