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Os idiotas tomarão conta do mundo pela força do número

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saturday

Por vezes, é necessário provocar, incomodar e até ser desagradável para despertar consciências e  obrigar a olhar para aquilo que preferimos ignorar. Não se trata de provocar por provocar, mas de  questionar o percurso que, há muitos anos, enquanto sociedade, temos vindo a seguir, muitas vezes  sem perceber, ou sem querer reconhecer, para onde nos está a conduzir. Um caminho marcado pelo  crescente afastamento dos cidadãos da vida pública, pelo enfraquecimento do sentido de pertença à  nação, pela desvalorização do Estado e pela indiferença perante questões fundamentais de soberania,  identidade e responsabilidade coletiva.

Até que ponto a qualidade de uma sociedade depende também da exigência, do conhecimento e da  responsabilidade dos seus próprios cidadãos?

Talvez o maior problema do mundo não seja a falta de conhecimento, competência ou sentido crítico,  mas o facto de estarmos progressivamente a entregar o poder, a influência e o reconhecimento público  a quem menos demonstra possuir estas qualidades. Pior ainda, começámos a aceitar a  mediocridade como uma condição normal da vida em sociedade, a confundir ignorância com  autenticidade e a tratar a competência como um defeito. Quem sabe é acusado de arrogância,  quem pensa é visto como complicado e quem grita, insulta e apresenta soluções absurdamente  simples encontra frequentemente uma multidão disposta a aplaudir. Chegámos a um ponto em que  ser popular parece valer mais do que ter razão, e a capacidade de provocar reações passou a contar  mais do que a capacidade de construir alguma coisa.

Basta olhar para o mundo que temos diante de nós. Assistimos a guerras, ameaças militares, disputas  territoriais, crises económicas, desigualdades profundas e ao enfraquecimento de instituições que  demoraram gerações a construir. Enquanto estas questões exigem prudência, conhecimento e  responsabilidade, parte da discussão política internacional transformou-se numa sucessão de  provocações, insultos, ameaças e demonstrações de força. Há dirigentes que comunicam como se  estivessem numa discussão de café, figuras públicas que confundem popularidade com autoridade e  responsáveis políticos que parecem medir o sucesso pela capacidade de humilhar adversários. O  espetáculo ocupa cada vez mais espaço, enquanto a discussão sobre as consequências das decisões  se torna secundária.

Seria fácil responsabilizar apenas os governantes, os partidos políticos ou as elites económicas. Mas  existe uma verdade muito menos confortável: os dirigentes não aparecem do nada e a mediocridade  não se mantém no poder sem encontrar quem a aceite, desculpe ou recompense. Uma sociedade  que aplaude a mentira quando esta favorece os seus interesses, que tolera a incompetência quando esta veste as cores da sua preferência política e que confunde agressividade com coragem acaba por  criar as condições para ser governada precisamente por aquilo que alimenta.

A democracia reconhece aos cidadãos o direito de escolher os seus representantes, mas nunca  garantiu que essas escolhas seriam acertadas. O voto tem o mesmo valor independentemente do  conhecimento de quem o exerce, e assim deve continuar. O problema não está na igualdade política,  mas na crescente facilidade com que a opinião desinformada se transforma em certeza absoluta e a  convicção substitui qualquer necessidade de compreender os factos. Quando milhões de pessoas  passam a admirar mais a insolência do que a competência, a qualidade da governação deixa de  depender apenas dos candidatos disponíveis e passa também a refletir aquilo que a sociedade está  disposta a valorizar.

Uma sociedade entretida com a própria decadência 

Na Roma antiga, o poeta Décimo Júnio Juvenal criticava uma população que parecia satisfeita com  pão e espetáculos, progressivamente afastada das preocupações da vida pública. Dois mil anos  depois, o mecanismo não desapareceu, apenas se tornou mais sofisticado. Aos anfiteatros da Roma  antiga sucederam-se novas arenas de entretenimento, dos estádios de futebol às redes sociais, onde  o espetáculo se prolonga muito para além das bancadas, porque cada pessoa transporta no bolso um  mundo de entretenimento permanente, disponível a qualquer hora e concebido para disputar cada  segundo da sua atenção.

Enquanto o mundo enfrenta guerras, disputas pela soberania dos Estados, instabilidade económica e  problemas que ameaçam o futuro dos serviços públicos, uma parte considerável da sociedade  consegue mobilizar uma indignação extraordinária por uma polémica futebolística, uma celebridade  ou uma publicação nas redes sociais. Há quem conheça todos os pormenores da vida privada de  pessoas que nunca encontrou, mas desconheça quem governa o seu município, como funciona a  Assembleia da República ou quais são as competências do Presidente da República. Acompanha os  resultados desportivos, comenta cada escândalo mediático e discute durante horas acontecimentos  sem grande relevância coletiva, enquanto demonstra um desinteresse quase absoluto pelas decisões  políticas........

© Observador