“A festa acabou"
Tenho tentado muitas vezes circunscrever o que me apela na questão da hospitalidade, quase sempre a partir de casos particulares e de instantes observados. Interessa-me a rede de gestos benignos, silenciosa, que relaciona os estranhos entre si e tece entre eles modos de amizade e generosidade, que se verificam, com sorte, também entre próximos.
Essa rede está de algum modo sob ameaça e, ao mesmo tempo, não pode estar sob ameaça, porque é uma rede de um para um, que tem a duração de cada um desses gestos e tem uma potencialidade infinita. É uma rede de olhares, de pequenas bondades, de trocas amigáveis, de palavras gentis, atitudes e intuições, hoje revolucionárias.
Diria que essa rede de bondades sempre existiu, mas que ela traça também os limites de uma excepção à regra, que se nota mais hoje do que em períodos históricos recentes.
A animosidade enfática a que assistimos, fruto da rejeição violenta de valores progressistas após um momento que foi para estes de manifesta exaltação, não nos iludamos a seu respeito. Mais do que do propalado fracasso da esquerda, da “alienação identitária” face aos problemas concretos das classes trabalhadoras, se é que isso encontra correspondência nos factos, nasce não só de um ódio visceral àquela exaltação e à renovação social a que tentou dar início, mas também de um pânico quanto à mudança e quanto à perda de estatuto, mascarada de nobres princípios e de fatos finos.
A exaltação alegre daqueles valores não é um aspecto secundário da transformação social que tentaram operar. É quase aflitivo o bom nome da aversão à celebração da diferença em todas as suas formas e, em particular, aos modos da exaltação que desconhecem, partilhados por aqueles a quem não entendem e com quem julgam não se assemelhar, vistos como ameaça.
Podia dar-se muitos exemplos. Basta olhar em redor.
Após uma breve Primavera em que aos temas da integração e a novas figuras foi dado lugar no espaço público, não sem os mal-entendidos e as obliquidades da “representação”, eis que nos vemos diante da rejeição agressiva da pluralidade. Nada foi perdido, porque nada havia sido conquistado: talvez esta tenha sido a grande ingenuidade dos últimos anos. O momento passou antes de se consumar. Os desequilíbrios foram repostos.
Portugal pela-se por bem-nascidos. Quando se abre espaço aos jovens, por exemplo, que estão hoje no centro de toda a atenção mediática, vemos que são quase sem excepção os que tiveram mais oportunidades de partida aqueles a quem é dada voz. O mérito de muitos é incontestável, porém, pouco ou nada se averigua do igual mérito daqueles que florescem na sombra.
Os filhos dos pobres e da classe média acotovelaram-se, na minha geração, para entrar na universidade, com esperança no mudar da vida. Muitos dos seus filhos desistem hoje de fazer o mesmo. Um número significativo não termina sequer o ensino secundário. Talvez as famílias entendam que não fez, não fará, assim tanta diferença.
Quem são? Os que trabalharam para pagar os estudos, os que não estudaram fora, os que entraram no mercado de trabalho nos anos da troïka, aqueles a quem os pais não compraram casas, os que nada herdaram, os filhos da gente comum.
Lembro-me de, a certa altura, ao publicar uma crónica neste jornal, um leitor ter comentado: “E esta aqui é filha de quem?” Somos orgulhosamente filhos de ninguém-conhecido, como toda a gente, anónimos, pais dos nossos pais.
Uma académica americana, especialista em Black Studies, dizia-me há meses, falando da América de Trump, e referindo-se ao seu campo de estudos e de acção artística: “A festa acabou”. (Esta frase faz muita gente feliz.) Nunca houve de facto qualquer horizonte de igualdade, dizia-me, a não ser a da boa-vontade mais ou menos enviesada e interesseira, transaccional, dos porteiros.
Ninguém pode nada, contudo, contra a rede implícita de gestos que comecei por celebrar, desde logo porque é invisível a olhos antipáticos. Nem tudo o que floriu naquela Primavera murchou. A rede benigna é uma rede de resistências, no espaço público e também, talvez sobretudo, no espaço da intimidade, ao qual só acede uma companhia de amigos, mesmo quando são desconhecidos.
Talvez tudo se resuma à condição fugitiva, aludida de muitos modos por Fred Moten desde há muitos anos. Ela opera no avesso do que está à vista, segue por caminhos nocturnos e não por estradas principais, acoita-se no interior das árvores, sabe fazer fogo com pedras, conhece as bagas nas florestas e sabe onde está a água.
Receba um alerta sempre que Djaimilia Pereira de Almeida publique um novo artigo.
