“A festa acabou"
Tenho tentado muitas vezes circunscrever o que me apela na questão da hospitalidade, quase sempre a partir de casos particulares e de instantes observados. Interessa-me a rede de gestos benignos, silenciosa, que relaciona os estranhos entre si e tece entre eles modos de amizade e generosidade, que se verificam, com sorte, também entre próximos.
Essa rede está de algum modo sob ameaça e, ao mesmo tempo, não pode estar sob ameaça, porque é uma rede de um para um, que tem a duração de cada um desses gestos e tem uma potencialidade infinita. É uma rede de olhares, de pequenas bondades, de trocas amigáveis, de palavras gentis, atitudes e intuições, hoje revolucionárias.
Diria que essa rede de bondades sempre existiu, mas que ela traça também os limites de uma excepção à regra, que se nota mais hoje do que em períodos históricos recentes.
A animosidade enfática a que assistimos, fruto da rejeição violenta de valores progressistas após um momento que foi para estes de manifesta exaltação, não nos iludamos a seu respeito. Mais do que do propalado fracasso da esquerda, da “alienação identitária” face aos problemas concretos das classes........
