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Djaimilia Pereira de AlmeidaObservador |
Apenas a mulheres conheci as profundezas do segredo na sua prática, que passa por transformar num tesouro a coisa mais sem importância, os pequenos...
O que me fascina é, como a respeito de outros traços, que possamos ser uma e outra coisa, ao mesmo tempo, sem contradição.
Penso nas pessoas que, na minha vida, estão sempre no mesmo lugar enquanto eu mudo de lugar, as pessoas que gostam de mim a ponto de reclamar que...
Quando o meu pai morreu, alguns dos seus amigos recordaram-no como o maior repórter que conheceram. O cheiro dos jornais, as histórias à mesa: foi...
E eu pensando que não entendia como podia um homem não escolher Hannah, a mulher mais bela que eu já vira: e a melhor condutora.
Vêm-me à cabeça coisas que li e ouvi nos últimos dias, hipérboles, prosa conseguida, conversas, caras que tento pôr por palavras sem ser capaz.
Nunca houve de facto qualquer horizonte de igualdade a não ser a da boa-vontade mais ou menos enviesada e interesseira, transaccional, dos porteiros.
Viver torna-se mais duro, se não sou capaz de escrever. Não ser capaz de escrever é análogo a estar doente.
De onde teriam vindo as duas mamãs belas, mães daqueles pequenos portugueses, um na barriga, outro, pequenino, num dos seus primeiros passeios pela...
Pergunto-me, então, que será para alguém ser de um lugar, se também aqui, onde caminho, os clientes habituais vieram de longe
Quando eu era menina, os meus avós tinham uma prima que nos visitava na altura do Natal e trazia sempre um bolo Inglês feito por ela, que eu...
O algoritmo treinado por mim só me mostra o que quero ver. Sempre que diverge ou se engana, dou-lhe indicação de que falhou, para que corrija o...
Conheci dois casais que odiavam toda a gente. Os primeiros não se coibiam de dizer mal da família e dos amigos próximos perto dos filhos desde que...
Analiso o meu currículo literário. Revistas que entretanto acabaram, textos de que só ficou o título, e já não tenho, nem sei o que diziam,...
Esta semana, visitei a casa mais triste do mercado. Foi penhorada e pertence agora ao fundo imobiliário que a pôs à venda. À porta, um autocolante...
Folheio a obra-prima A Woman I Once Knew (MACK, 2024), da fotógrafa americana Rosalind Fox Solomon. Há uns anos fiquei maravilhada com o seu...
Conhecia-a na cidade. Era má pessoa e tinha vindo do campo. Nós éramos miúdas e ela introduzia-nos à vida adulta, contando-nos da sua rotina de...
Até começar a publicar livros, desconhecia a náusea da publicação. Uma agonia, mais física do que moral, de imaginar que seremos lidos pelos...
O que fazer diante da amplitude do desconhecido, de tudo quanto não sabemos, o que desconhecemos, sobre os outros, e sobre nós, a nossa história, o...
Havia em casa dos meus avós um candeeiro de parede. Era de vidro, acendia-se com um fio de algodão que puxava com a minha mão de cinco anos....
Fui ensinada a não pedir muitos conselhos aos meus pais e a ter ganas de chegar depressa à idade em que seria eu a dar-lhes conselhos. Ouço hoje,...
Ela queria uma casa onde fosse capaz de escrever. É espantoso como os lugares nos incitam ou nos intimidam. A mesma mulher, dependendo do espaço,...
A presença da mulher na festa, depois de tudo o que anfitriã me dissera sobre ela, contando-me sobre o seu mau carácter e como lhe tinha roubado...
Viajei para Lisboa faz vinte anos por causa do meu rim. Acabei ficando até hoje, tratamentos acabaram já nem sei quando. Primeiro vivemos em...
“Descreva-me a sua terra”, pedia-me ele. Eu voltava de comboio à minha terra para o Verão. Trazia um caderno finamente ornamentado que rabiscava...
Apetecia-me fazer castelos na areia, disse-lhe ela, ele riu-se. Estavam agora para lá da tempestade do ano anterior. Ela já não ouvia vozes, ele...
Todas as semanas me deparo com a necessidade de ter de dizer alguma coisa e com a minha estupefacção diante dos acontecimentos. Escrever...
Talvez na raiz esteja também a vergonha do lugar de onde se vem. Talvez no avesso da aversão ao diferente haja, disfarçado de orgulho, um...
Sentou-se à secretária, cruzou a perna, bebeu da chávena de chá ali deixada desde a véspera e assinou o seu nome numa folha de papel, logo...
‘Para quê fazer isto?’ ‘Para que serve?’ ‘A quem interessa?’ Desbaratei a juventude a questionar a minha própria inteligibilidade. De...
1.O horror ao outro nos outros: como podemos proteger-nos dele? Não devo ser a única pessoa que acordou da noite eleitoral nauseada e dormente. Em...
Um dia de sol, sem vento, em que posso fumar à janela sem espalhar a cinza, um dia em que cozinhe para alguém que amo e veja essa pessoa comer com...
Nunca encontrei a amiga negra. Refiro-me a uma amiga íntima, de quem fosse inseparável, que me conhecesse por inteiro, a quem contasse os meus...
Queria contar-te que desde há três dias observo longos minutos a sombra das nuvens no mar. Formam, num tom de azul diferente, opaco e mais denso,...
Então, no último dia, corro à papelaria de Ibrahim para comprar fita adesiva. Ele não sabe que é a última vez que nos veremos por muito tempo e...
A menina aprendera a canção na escola, naquele dia, e escreveu-a num papel para decorar a letra: “ala bum xica bum, ala bum xica bum ala bum...
Prenúncios de mudança no horizonte, a aproximação do futuro — e não sei se hei-de ter medo das transformações ou de me alegrar com o novo. É...
Poucos modos de vida são mais ignominiosos do que o dos profissionais do medo. Ganham a vida a fazer-nos crer que não conseguimos, não merecemos....
Lembro-me da conversa e do esgar da mulher, há vinte anos, num jantar, quando lhe disse que fazia planos. Os jantares são a ocasião ideal para o...
Inverno. Viajo de carro debaixo da chuva torrencial. Vou pensando que não há nada que deteste tanto quanto os estranhos imaginarem que me conhecem....