menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Masséna chegou cedo demais para o Carnaval

18 0
14.10.2026

Há cidades que passam a vida inteira à procura de uma identidade. Torres Vedras teve a sorte de encontrar duas, separadas por duzentos anos e, à primeira vista, completamente incompatíveis: primeiro tornou-se célebre por não deixar entrar franceses; depois tornou-se célebre por deixar entrar toda a gente.

É uma evolução civilizacional apreciável.

Hoje, quando Torres Vedras é invadida, a Câmara ajuda. Fecham-se ruas, montam-se palcos, chegam autocarros, enchem-se cafés e restaurantes e aparecem milhares de pessoas dispostas a passar várias horas dentro de um perímetro do qual, curiosamente, também não é fácil sair. Há cabeçudos, carros alegóricos, matrafonas e aquela alegria muito portuguesa que consiste em levar o absurdo suficientemente a sério para que ele se torne tradição.

Em 1810 a invasão era menos divertida.

A 12 de outubro, durante a terceira invasão francesa, as tropas de Masséna chegaram à zona de Sobral e encontraram diante delas as Linhas de Torres Vedras. Napoleão não estava lá, apesar de hoje parecer existir uma espécie de lei da Internet segundo a qual qualquer francês com um cavalo entre 1807 e 1811 era Napoleão. Quem comandava era André Masséna, marechal de França, veterano de campanhas suficientes para não se impressionar facilmente.

Torres Vedras conseguiu impressioná-lo.

Masséna vinha de uma Europa onde os franceses tinham adquirido o hábito pouco simpático de aparecer, dar batalha, vencer e continuar viagem. Portugal decidiu não colaborar com o hábito. Em vez de tentar ser mais francês do que os franceses, fez aquilo que os portugueses fazem melhor quando deixam de perder........

© Observador