O hantavírus não é o novo covid, mas a reação pública parece ser
O surto de hantavírus associado a um cruzeiro de luxo bastou para desencadear um fenómeno já demasiado familiar: teorias de conspiração, previsões apocalípticas, suspeitas sobre vacinas, ataques às autoridades sanitárias e uma nova vaga de desinformação viral nas redes sociais.
Primeiro surge o medo. Depois a amplificação mediática. A seguir aparecem os “especialistas” de TikTok, os profetas do colapso global, os vídeos sobre laboratórios secretos, os algoritmos a recompensarem indignação e ansiedade. Finalmente, regressa o sentimento mais profundo deixado pela pandemia: a desconfiança estrutural.
Há algo ainda mais profundo neste fenómeno: as sociedades desenvolvem memória traumática coletiva. Tal como um indivíduo que, depois de um acidente, reage de forma exagerada a qualquer estímulo semelhante, também comunidades inteiras passam a interpretar novos acontecimentos através da cicatriz emocional deixada por eventos passados. O Covid não alterou apenas sistemas de saúde ou modelos económicos; alterou a arquitetura psicológica das sociedades contemporâneas.
O cérebro coletivo já não distingue facilmente entre ameaça potencial e trauma recordado. Reage primeiro. Analisa depois. E nesse espaço entre emoção e racionalidade........
