A Arte da Guerra Comercial
Sun Tzu escreveu que a maior vitória é aquela que se alcança sem combate. Durante décadas, a Alemanha acreditou que essa máxima se aplicava também ao comércio internacional. Chamou-lhe “Wandel durch Handel”, a mudança através do comércio. A ideia era simples e profundamente alemã: integrar, negociar, vender, comprar, interdependência como antídoto contra o conflito. Quem é alemão, ou de ascendência alemã, reconhece facilmente esta ideia e o peso que tem na sociedade alemã. E foi assim que Berlim se aproximou da Rússia nas últimas duas décadas com Angela Merkel. Energia em troca de previsibilidade política. Comércio em troca de integração. Correu mal.
A história recente mostrou os limites dessa aposta. A invasão da Ucrânia e a guerra no Irão vieram expor ainda mais a vulnerabilidade de uma dependência excessiva e a ingenuidade de acreditar que o comércio, por si só, altera regimes. A China poderá ser outra história.
O mundo mudou, mas a Alemanha não pode simplesmente abandonar essa herança estratégica. A visita de Friedrich Merz a Pequim foi, por isso, muito mais do que um gesto diplomático. Foi um movimento calculado num tabuleiro onde já não se joga apenas comércio, mas poder, prolongado dias depois por contactos em Washington, num esforço de equilibrar as duas margens do sistema internacional.
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Alemanha
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A Alemanha é hoje o maior parceiro económico europeu da China. Representa cerca de um terço do comércio total entre a União Europeia e Pequim. O volume bilateral tem oscilado entre 240 e 260 mil milhões de euros anuais. Em vários anos recentes, a China alternou com os Estados Unidos da América como principal parceiro comercial global da Alemanha. Não estamos a falar de uma relação marginal. Estamos a falar do eixo central da ligação económica sino-europeia.
Os números são reveladores. A Alemanha exporta para a China automóveis, maquinaria industrial, produtos químicos, tecnologia de precisão. Importa componentes industriais, equipamento eletrónico, baterias e matérias intermédias essenciais à sua cadeia de valor. O défice comercial alemão face à China tem crescido, pressionando Berlim a exigir mais reciprocidade e melhores condições de acesso ao mercado chinês. A dependência é real, mas também o é a interligação estrutural das duas economias.
E neste contexto que Merz decidiu ir a Pequim. Não por ingenuidade, não por romantismo........
