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A Arte da Guerra Comercial

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28.03.2026

Sun Tzu escreveu que a maior vitória é aquela que se alcança sem combate. Durante décadas, a Alemanha acreditou que essa máxima se aplicava também ao comércio internacional. Chamou-lhe “Wandel durch Handel”, a mudança através do comércio. A ideia era simples e profundamente alemã: integrar, negociar, vender, comprar, interdependência como antídoto contra o conflito. Quem é alemão, ou de ascendência alemã, reconhece facilmente esta ideia e o peso que tem na sociedade alemã. E foi assim que Berlim se aproximou da Rússia nas últimas duas décadas com Angela Merkel. Energia em troca de previsibilidade política. Comércio em troca de integração. Correu mal.

A história recente mostrou os limites dessa aposta. A invasão da Ucrânia e a guerra no Irão vieram expor ainda mais a vulnerabilidade de uma dependência excessiva e a ingenuidade de acreditar que o comércio, por si só, altera regimes. A China poderá ser outra história.

O mundo mudou, mas a Alemanha não pode simplesmente abandonar essa herança estratégica. A visita de Friedrich Merz a Pequim foi, por isso, muito mais do que um gesto diplomático. Foi um movimento calculado num tabuleiro onde já não se joga apenas comércio, mas poder, prolongado dias depois por contactos em Washington, num esforço de equilibrar as duas margens do sistema internacional.

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A Alemanha é hoje o maior parceiro económico europeu da China. Representa cerca de um terço do comércio total entre a União Europeia e Pequim. O volume bilateral tem oscilado entre 240 e 260 mil milhões de euros anuais. Em vários anos recentes, a China alternou com os Estados Unidos da América como principal parceiro comercial global da Alemanha. Não estamos a falar de uma relação marginal. Estamos a falar do eixo central da ligação económica sino-europeia.

Os números são reveladores. A Alemanha exporta para a China automóveis, maquinaria industrial, produtos químicos, tecnologia de precisão. Importa componentes industriais, equipamento eletrónico, baterias e matérias intermédias essenciais à sua cadeia de valor. O défice comercial alemão face à China tem crescido, pressionando Berlim a exigir mais reciprocidade e melhores condições de acesso ao mercado chinês. A dependência é real, mas também o é a interligação estrutural das duas economias.

E neste contexto que Merz decidiu ir a Pequim. Não por ingenuidade, não por romantismo geopolítico, mas por necessidade estratégica. A Alemanha atravessa um momento de estagnação industrial. O modelo exportador que sustentou o milagre económico do pós-guerra enfrenta uma concorrência feroz, quer da China, quer dos Estados Unidos. O choque energético provocado pelas guerras fragilizou a indústria pesada alemã. A transição para o automóvel elétrico ameaça um dos pilares do seu tecido produtivo. A resposta não pode ser o isolamento.

Jonathan Raa/NurPhoto/Getty Images

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Os Estados Unidos, sob uma lógica cada vez mais protecionista, enviaram um sinal claro à Europa ao impor tarifas e ao privilegiar políticas industriais nacionais. O Inflation Reduction Act foi apenas o exemplo mais visível de uma América que subsidia a sua própria reindustrialização. Washington pede alinhamento estratégico face à China, mas simultaneamente cria barreiras comerciais que prejudicam os aliados europeus. A mensagem implícita é inequívoca: cada um que cuide da sua base industrial.

Perante este cenário, Merz compreendeu que a Alemanha não pode depender exclusivamente do mercado dos Estados Unidos, Se Washington ergue muros tarifários, a Europa tem de procurar outras portas. A aproximação à China não é uma traição atlântica. E uma resposta racional à nova realidade, é a opção para a Europa ganhar espaço na mesa do adultos. O mesmo raciocínio explica a aceleração do acordo comercial com a índia e o esforço europeu para diversificar mercados na Ásia e na América Latina. Uma potência industrial vive da abertura. Fecha-se e definha.

A viagem de Merz, porém, não foi apenas comercial. Foi geopolítica. A Alemanha sabe que a China deixou de ser apenas parceiro para se tornar também rival sistémico. Nos automóveis elétricos, nas tecnologias verdes, na inteligência artificial, Pequim compete diretamente com a indústria alemã. A antiga complementaridade transformou-se em concorrência estratégica. O desafio é gerir esta tensão sem romper o vínculo.

PHILIP FONG/AFP via Getty Images

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Aqui regressa o espírito do “Wandel durch Handel”. Não como dogma ingénuo, mas como instrumento de equilíbrio. A interdependência cria riscos, mas também cria influência. Uma Alemanha presente na China tem capacidade de dialogar sobre regras, sobre acesso ao mercado, sobre propriedade intelectual. Uma Alemanha ausente limita-se a observar. Merz parece ter entendido que a autonomia estratégica europeia não se constrói afastando-se das grandes potências, mas sabendo negociar com todas.

Há ainda um elemento interno decisivo. A reindustrialização alemã exige escala. Exige mercados. Exige capacidade de investimento e de mão-de-obra. Sem crescimento económico sustentado, não há margem orçamental para investir em defesa, em inovação, em transição energética. A Alemanha que quer reforçar o seu papel militar na Europa precisa primeiro de recuperar músculo económico. A política industrial e a política de defesa são duas faces da mesma moeda.

Neste quadro, a Alemanha não atua isoladamente. Merz tem defendido uma parceria estratégica mais profunda com Itália, não apenas no plano político, mas também no plano económico e industrial. A ideia de um eixo Berlim-Roma capaz de dinamizar cadeias de valor europeias é parte de uma visão mais ampla. A Europa só será player global se agir como bloco económico coeso. A fragmentação interna enfraquece-a face a Washington e a Pequim.

EPA / ALEX PLAVEVSKI

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A possibilidade de aprofundar um mercado comum mais estruturado com a China, ainda que limitado a setores específicos e sob regras claras, insere-se nesta lógica de expansão controlada. Não se trata de ingenuidade. Trata-se de pragmatismo estratégico. Se a Alemanha é o maior parceiro europeu da China, então tem responsabilidade acrescida em definir os termos dessa relação. Pode escolher ser arrastada pelos acontecimentos ou pode tentar moldá-los.

A realidade europeia revelou-se, mais uma vez, prisioneira de si própria. Bruxelas reagiu com reservas e travou o ímpeto político. A União Europeia rejeitou a ideia de um avanço mais ambicioso na relação comercial com a China, insistindo em condicionalismos, equilíbrios e exigências técnicas que, sendo legítimas, revelam também uma incapacidade crónica de agir em tempo estratégico. Num momento em que o mundo acelera e em que o Médio Oriente mergulha novamente na instabilidade, a Europa escolhe o reflexo burocrático em vez da oportunidade geopolítica. Mais uma vez, a União Europeia regulatória e excessivamente cautelosa perde a possibilidade de se afirmar como protagonista. Em vez de tentar ocupar o centro do tabuleiro, prefere discutir as regras das peças. E assim, arrisca continuar a jogar como peão num jogo onde já devia ambicionar ser rainha.

Os críticos dirão que a China não partilha os valores europeus, que subsidia a sua indústria, que utiliza o comércio como instrumento político. Tudo isso é verdade. Mas a alternativa qual é?

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Cortar relações. Encerrar mercados. Entregar a influência a outros. A história económica alemã ensina precisamente o contrário. Foi através da integração comercial que a Alemanha reconquistou legitimidade internacional no pós-guerra. Foi através do mercado comum europeu que consolidou a sua prosperidade.

A visita de Merz a Pequim foi, portanto, um teste à maturidade estratégica europeia. A Europa pode continuar a reagir aos impulsos das grandes potências ou pode afirmar-se como ator autónomo. Isso implica negociar com os Estados Unidos sem submissão e dialogar com a China sem ingenuidade. Implica, sobretudo, recuperar competitividade interna. Só uma Europa capaz de equilibrar a sua balança comercial e de fortalecer a sua base industrial poderá sustentar ambições geopolíticas.

Entretanto, o mundo voltou a acelerar. A guerra no Irão reintroduziu a energia como variável central do sistema internacional. O preço do petróleo subiu de forma significativa, trazendo de volta um fator de pressão sobre as economias industriais europeias. Para a Alemanha, a lição é imediata. A vulnerabilidade energética não desapareceu, apenas mudou de forma.

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Sun Tzu escreveu que a guerra se vence antes de ser travada. No século XXI, a batalha é económica, mas também energética. Quem domina cadeias de valor, tecnologia, mercados e fluxos de energia define as regras. Merz parece ter compreendido que a Alemanha não pode abdicar do maior mercado do mundo enquanto procura reinventar a sua indústria. A reindustrialização não se faz em laboratório. Faz-se vendendo, comprando, competindo.

A viagem a Pequim não foi um gesto simbólico. Foi uma afirmação de realismo. A Alemanha quer voltar a ser o motor da Europa. Para isso precisa de mercados abertos, de parceiros estratégicos e de uma política externa que compreenda que o comércio é instrumento de poder. A Europa que teme negociar é a Europa que encolhe. A Europa que ousa negociar é a Europa que cresce.

Merz escolheu negociar. O futuro dirá se a aposta foi suficiente. Mas ignorar a China não tornaria a Alemanha mais forte. Torná-la relevante nas duas margens do mundo, num tempo em que comércio, energia e segurança voltaram a fundir-se, talvez seja a única forma de garantir que, na próxima década, Berlim não seja apenas espectadora da nova ordem económica global, mas uma das suas arquitetas.


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