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Minha mãe tem 78 anos e não tem tempo para o fim do mundo

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20.10.2026

“O futuro fala línguas que o imperialismo não entende.” Essa frase de Ododuá não me deixa em paz há semanas (que bom). Aparece quando acordo, quando converso com meus amigos, quando vejo as notícias e, principalmente, quando penso no país que vamos encontrar depois da eleição. Tenho tentado descobrir que língua é essa, quem a fala e onde se aprende. Talvez seja justamente a graça: se o imperialismo entendesse tudo o que somos capazes de inventar, já teria encontrado uma maneira de vender, explorar ou proibir.

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Mas, nos últimos dias, comecei a suspeitar que conheço alguém que fala essa língua há muito tempo, embora provavelmente nunca tenha ouvido falar em imperialismo como conceito acadêmico. Minha mãe.

Ela tem 78 anos e, nos últimos anos, tem ido às ruas participar de manifestações políticas. Não porque tenha descoberto agora que o Brasil é um país complicado, mas porque conhece essa complicação há quase oito décadas, boa parte delas vividas sem que ninguém lhe perguntasse o que achava.

Minha mãe viu ditaduras, golpes, impeachment, inflação, confisco da poupança durante o governo Collor, em quem ela votou, seduzida pelo discurso da mudança, desemprego, crises econômicas e promessas de salvação nacional que geralmente terminavam com os pobres pagando a conta. Fora os dramas e dilemas pessoais, claro. Viu o país mudar de moeda, assistiu à chegada de Lula à Presidência e experimentou, na própria vida, o que significa quando políticas públicas deixam de ser um discurso distante e começam a chegar à mesa de quem trabalha.

É uma mulher afroindígena que não conhece inteiramente a própria história porque o colonialismo fez um trabalho bastante eficiente de interromper genealogias, apagar nomes, separar famílias e transformar a memória de determinados povos em coisa descartável. O racismo e a desigualdade econômica cuidaram de dificultar o restante. Foi empregada doméstica, trabalhou, criou filhos e participou dos sacrifícios que permitiram que eu, sua filha, estudasse numa universidade pública.

E se essa for a última eleição em que nós, mulheres, podemos votar?

Hoje sou jornalista, escritora e tenho um mestrado pela Unicamp. Não sou um milagre individual, nem uma história de meritocracia, uma vencedora solitária ou um daqueles casos que o empreendedorismo adora transformar em palestra sobre superação. Sou resultado do trabalho dos meus pais, de uma universidade pública e de uma série de conquistas coletivas que tornaram minha trajetória possível. Antes de existir meu diploma, existiu uma mulher trabalhando na casa de outras pessoas. Lembra quando a Jéssica passou no vestibular e o Fabinho não, em Que Horas ela Volta? Pois é!

É por isso que, quando vejo minha mãe na rua aos 78 anos, penso que há algo de extraordinário e profundamente simples naquela cena. Ela não está defendendo uma abstração. Está defendendo a vida conseguiu construir e aquela que deseja que continue possível para quem vem depois.Minha mãe já viu coisa demais para acreditar em conto de fadas. Não é otimista. É de luta.

Essa é a diferença que precisamos compreender antes do próximo domingo.Porque, convenhamos, o otimismo anda com uma reputação bastante duvidosa. Basta abrir o noticiário para entender por quê. Há momentos em que ser otimista parece exigir uma combinação de desconhecimento histórico, excesso de confiança e uma capacidade admirável de ignorar a realidade. Não é disso que estou falando.

Estou falando de persistência, método, memória, organização.

De conhecer o próprio território, saber quem mora na rua, quem frequenta o bar, quem está no grupo da família, quem precisa de ajuda e quem anda sozinho demais. Estou falando de abandonar a fantasia do grande protagonista que........

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