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Opinião | Vespa parasita castra vítima

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21.02.2026

Formigas ‘médicas’: insetos fazem amputações entre si para curar feridas; veja vídeo

Em 90% dos casos analisados, as formigas sobreviveram ao procedimento. Medida pode evitar que infecções se espalhem pelo corpo do inseto.

“Pega pra capar” significa confusão e violência. Sua origem está na pecuária. Vaqueiros laçam o bezerro, o derrubam, e enquanto dois seguram a vítima, um terceiro corta o testículo castrando o animal. É violento mesmo quando feito por vaqueiros experientes, mas funciona. O bezerro castrado perde o desejo sexual e só pasta, engordando mais rápido e atingindo um peso maior. Mais carne, mais dinheiro no bolso do pecuarista.

A novidade é que uma vespa parasita incluiu essa prática na sua estratégia reprodutiva. O que um animal não faz para deixar descendentes…

A vespa Cotesia vestalis é um parasita sexual, depende de outra espécie para reproduzir. Funciona assim. A vespa adulta pousa nas costas de uma lagarta de um lepidóptero da espécie Plutella xylotella, e, usando seu ovopositor, que funciona como uma espécie de seringa, deposita seus ovos no interior da lagarta. No início a lagarta continua a comer as folhas das quais se alimenta com a esperança de vir a se transformar em um adulto semelhante uma traça. Mas seu destino está traçado, os ovos da vespa eclodem e se transformam em larvas que devoram a lagarta por dentro enquanto ela come as folhas de couve ou dezenas de outros vegetais apetitosos. É claro que as larvas da vespa acabam matando a pobre coitada e novas vespas deixam o cadáver em busca de outras lagartas.

O que os cientistas descobriram faz algum tempo é que logo após a eclosão dos ovos da vespa, ocorre um fenômeno estranho na lagarta: as células reprodutivas da lagarta morrem. Ou seja, de algum modo a vespa castra a lagarta parasitada. E a lagarta castrada come mais, como um bezerro castrado, o que no fim resulta em mais comida para as larvas da vespa que estão devorando o interior da lagarta.

Ao investigar como a vespa induz a morte das células reprodutivas da lagarta os cientistas descobriram que é uma castração química: as larvas da vespa produzem uma proteína chamada CvBV_22-9 que se liga nas células reprodutivas e induzem seu suicídio (um processo chamado de apoptose). Mas ao investigar o genoma da vespa no intuito de achar o gene da CvBP os cientistas levaram um susto. Esse gene na verdade vem de um vírus que no passado infectava as vespas e foi incorporado no seu genoma. A proteína desse vírus se tornou uma segunda arma do arsenal da vespa.

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Ficou confuso? Deixe-me resumir. A vespa parasita deposita seus ovos na lagarta que parece uma taturana. Os ovos eclodem e os filhotes da vespa comem a lagarta por dentro ao mesmo tempo que produzem uma proteína que mata as células reprodutivas da lagarta. E o gene dessa proteína foi “roubado” pela vespa de um vírus. Ao matar as células reprodutivas da lagarta ela produz mais alimento para os filhotes da vespa. Cruel, mas funciona. É como castrar um bezerro.

Esse é um ótimo exemplo de quão complexa e sofisticada pode ser a estratégia reprodutiva de um animal.

Mas vale a pena voltar ao campo. Atualmente vespas parasitas de diferentes espécies são criadas em laboratório e soltas nas plantações para infectar as lagartas de espécies que devoram nossas plantações de soja, milho e algodão. É o que chamamos de controle biológico de pragas: usar um ser vivo para atacar e matar outro ser vivo que nos prejudica. Essa tecnologia reduz ou evita o uso de inseticidas nas lavouras.

Mais informações: Parasitic castration by a viral protein tyrosine phosphatase targeting the host cell cycle checkpoint protein Rad9A. Proc. Nat. Acad. Sci. https://doi.org/10.1073/pnas.2524949123 2026


© Estadão