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Quaresma: prioridades

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12.03.2026

Não é fácil estruturar em categorias a sociedade hodierna. Correndo o risco de não ser devidamente interpretado, penso que poderemos chamar-lhe sociedade do fazer. Muitos vivem preocupados, sobretudo com aquilo que fazem. Há uma grande pressão para obter sucesso e acredita-se que, para o alcançar, é necessário ganhar sempre mais, agradar aos outros e submeter-se à pressão da opinião pública. Para esse efeito, tudo parece permitido, mesmo que seja necessário mascarar-se ou viver na preocupação constante do parecer. Basta aquilo que se mostra, e corre-se, de modo atarefado, iludindo-se com a obrigação de fazer cada vez mais.

Contudo, a história recente, e sobretudo a do passado, mostra um contraste. Era habitual trabalhar e produzir, mas sem descuidar aquilo que se era. Havia uma preocupação equilibrada com o ser. Hoje, esse equilíbrio perdeu-se, e esquece-se facilmente que a prioridade, quando se avalia o valor das coisas, está naquilo que se é, pois é do ser que nasce aquilo que fazemos.

Por muito que nos custe, é necessário recuperar a prioridade do ser. Começa mesmo a falar-se de uma doença do nosso tempo, que alguns psicólogos e psiquiatras designam por TAS: Tristeza, Angústia e Solidão. Esta realidade denuncia o quotidiano de um mundo considerado moderno e desenvolvido, mas que, muitas vezes, perdeu o seu centro.

Importa, por isso, regressar à prioridade do ser para reencontrar o equilíbrio. Somos aquilo que somos e não apenas aquilo que fazemos.

O jovem S. Carlo Acutis recordava esta verdade de forma muito expressiva:“Nascemos originais e estamos a morrer como fotocópias.”

Este é, infelizmente, um retrato da sociedade atual. Não cuidamos da nossa originalidade e vamo-nos perdendo num anonimato que empobrece a sociedade; deixamo-nos conduzir pelas correntes dominantes e ficamos satisfeitos quando somos iguais aos outros.

A Quaresma deveria conduzir-nos precisamente a este compromisso. Cada pessoa tem o seu caminho, mas é chamada a percorrê-lo com autenticidade e verdade, seguindo Aquele que se identificou com o homem, para que este tivesse vida em plenitude. Mais do que nunca, é urgente acreditar na beleza da diversidade e crescer, lado a lado, com quem pensa e vive de modo diferente.

Não bastam os catálogos de comportamentos que todos repetem. É necessário entrar no segredo do íntimo e, aí, reencontrar a própria originalidade. Só assim será possível um crescimento verdadeiramente feliz e um contributo positivo para a construção de uma sociedade melhor. É fácil seguir os caminhos que todos percorrem; mais exigente é redescobrir aquilo que verdadeiramente somos e deixar que isso ilumine aquilo que fazemos.

A pressão do mundo é grande, contudo, quando queremos, somos capazes de fazer escolhas. A Quaresma é um tempo privilegiado para isso. Não poderá Cristo entrar nas motivações desta opção pelo ser? De facto, Ele pode ser a referência que inspira gestos e atitudes capazes de construir um mundo mais humano, aberto à felicidade de todos, e não apenas de alguns.

Santo Agostinho dizia:“O mundo será bom quando eu for bom.”

Aqui está um grande desafio do nosso tempo. A sociedade apostou muito na técnica e na ciência – realidades valiosas – mas corre o risco de esquecer o que é verdadeiramente essencial: o coração humano e a sua identidade.

Recordo um episódio da história da Igreja. Por volta do ano 1500, colocava-se a questão da celebração do Ano Santo. O Papa residia em Avinhão, e Roma não apresentava o ambiente espiritual desejado. O anúncio acabou por surgir mais tarde, também devido à pressão das multidões, que desejavam esse encontro com o sobrenatural.

Não houve tempo para escolher um lema oficial. Contudo, espontaneamente surgiu uma frase que marcou aquela época:

“Nulla mihi patria nisi Christus, nec nomen aliud quam Christianum.”(“Não tenho outra pátria senão Cristo, nem outro nome além do de cristão.”)

Não será Cristo a prioridade das prioridades, Ele que une a humanidade numa única pátria, porque n’Ele os cristãos encontram a sua verdadeira identidade?

Na quaresma prestamos atenção a muitas coisas. Algumas delas muito valiosas e históricas. Importa, porém, partir dum ponto prioritário capaz de garantir o que verdadeiramente tem valor. O silêncio quaresmal ,criado por cada um no seu intimo, ajudará a conviver com uma voz diferente de todas as outras, obrigando-nos, de seguida, a comprometer-se com opções que nos diferenciam e identificam. Só assim mostraremos a nossa originalidade e tocaremos a felicidade que procuramos.


© Diário do Minho