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O nosso lugar no universo

Miguel Mesquita Montes

Ryan Gosling regressa ao espaço sideral depois de Blade Runner 2049 e O Primeiro Homem na Lua. O dueto Phil Lord e Christopher Miller assina a realização de Project Hail Mary, em exibição desde 14 de março.

Não existe uma maneira fácil de questionar o nosso lugar no universo. Ora se pode aceitar o lado absurdo, convivendo com uma solução vaga; ora se pode tentar explicar a vida, adivinhando-lhe uma razão para ter acontecido.

Há um motivo para os filmes de ficção científica se parecerem uns com os outros: são, por norma, os mais especulativos, precisamente por se debruçarem sobre o desconhecido. No entanto, ser especulativo não invalida ser explicativo; depende do quanto se ousa arriscar.

“Project Hail Mary tem a dose certa de especulação versus explicação. Apresenta-se quase sempre de forma cómica, mas nem por isso perde a seriedade ou a relativa naturalidade”

Nele, a Terra enfrenta um problema fatal: um microorganismo que reside num espectro de radiação infravermelha entre Vénus e o sol está a enfraquecer a estrela que dá vida ao sistema solar, provocando um arrefecimento terrestre tão drástico quanto antecipado.

Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda de um coma numa nave espacial, a anos-luz de casa, mas não se recorda de como foi ali parar. Através de uma narrativa paralela, vamos percebendo o seu passado: trata-se de um professor de ciências do ensino básico dado como louco após ter arriscado a reputação como investigador ao emitir uma opinião dissidente. Depois de a comunidade científica assumir que afinal poderia ter razão, o cientista acaba por ser enviado para uma missão sem retorno.

A forma como Grace encabeçou a expedição, sendo o único sobrevivente, é ritmada por cortes demasiado apressados, porém articulados com boa música para manter o one man show alegre e vivo. A narrativa tem ideias semelhantes a Perdido em Marte (cujo livro adaptado também foi escrito por Andy Weir), Arrival ou Interstellar, além de homenagear de forma mais óbvia outras obras consideradas fundadoras do género (Encontros Imediatos do Terceiro Grau e 2001: Odisseia no Espaço).

A linha ténue entre Grace e o universo, entre presente e passado, entre comédia e tragédia, lembra-nos da fragilidade iminente do nosso ser. O que não quer dizer que a viagem não possa ser divertida.

Miguel Mesquita Montes

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