“A biblioteca pública e a...”
As bibliotecas públicas portuguesas viveram, nas últimas décadas, um processo de renovação que importa reconhecer. Modernizaram espaços, diversificaram serviços, aproximaram-se de públicos que durante muito tempo permaneceram afastados e afirmaram-se como equipamentos culturais de proximidade. Esse caminho é meritório e deve ser valorizado. A biblioteca contemporânea não é um armazém de livros, nem um espaço fechado sobre o silêncio absoluto. É um lugar vivo, que respira com a comunidade que serve. Contudo, toda a evolução exige reflexão. A abertura à comunidade não pode significar diluição da identidade. Nos últimos anos tem-se assistido, em algumas bibliotecas, à proliferação de atividades cuja relação com o livro, com a leitura e com a literacia é ténue ou inexistente. Fala-se de grupos de tricô, de costura, de trabalhos manuais ou de encontros essencialmente recreativos que podem decorrer em múltiplos outros espaços municipais igualmente vocacionados para o convívio e a ocupação de tempos livres. Não está em causa o valor humano dessas práticas. O convívio é necessário, a partilha é importante, o combate ao isolamento é uma prioridade social. O que se questiona é se cabe à biblioteca pública assumir indistintamente todas essas funções quando possui uma missão própria, clara e historicamente construída. O Manifesto da Biblioteca Pública aprovado pela UNESCO reafirma que a biblioteca é um centro local de informação que torna prontamente acessíveis aos seus utilizadores todos os tipos de conhecimento e informação. Sublinha a promoção da leitura desde a infância, o apoio à educação formal e informal, o estímulo à imaginação e à criatividade, o acesso livre e equitativo à cultura e à informação e o fortalecimento do pensamento crítico enquanto base de uma cidadania esclarecida. Estes princípios não são meras declarações simbólicas. São o fundamento ético e funcional da biblioteca pública. Quando a programação se afasta sistematicamente deste núcleo, corre-se o risco de transformar a biblioteca num espaço indiferenciado cujo principal argumento é a ocupação do tempo e não a formação do leitor nem o acesso ao conhecimento. Num país onde os índices de leitura continuam a revelar fragilidades e onde as desigualdades no acesso à informação persistem, a biblioteca pública desempenha um papel insubstituível. É, muitas vezes, o único espaço verdadeiramente democrático onde qualquer cidadão, independentemente da sua condição económica, pode aceder gratuitamente a livros, a recursos digitais, a jornais, a bases de dados, a atividades de mediação da leitura e a oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. A biblioteca pública é também um espaço de liberdade intelectual. Defende o pluralismo, garante diversidade de pensamento, protege o direito à informação e promove a capacidade crítica. Num tempo marcado pela desinformação e pela superficialidade, este papel é mais relevante do que nunca. A sua função não é entreter indistintamente, mas oferecer instrumentos para compreender o mundo. É evidente que a biblioteca deve ser um lugar de encontro. Mas o encontro pode nascer do livro, da leitura partilhada, da escrita criativa, da memória coletiva, da narração oral, da ilustração, da investigação local, da literacia digital. A criatividade programática não exige afastamento da missão. Pelo contrário, exige que cada atividade dialogue com ela. Uma atividade manual pode integrar-se num projeto mais amplo de valorização do património imaterial, pode ser acompanhada por leitura de textos literários, pode gerar registos escritos, pode promover pesquisa histórica. Quando existe esta intencionalidade, a atividade reforça a identidade da biblioteca. Quando não existe, corre-se o risco de a biblioteca ser apenas o espaço disponível porque é confortável, central e gratuito. Os municípios possuem uma rede diversificada de equipamentos culturais e sociais. Centros de convívio, academias seniores, associações culturais e recreativas desempenham um papel essencial na dinamização comunitária. A biblioteca não precisa substituir esses espaços para provar a sua relevância. A sua força está precisamente na especificidade da sua missão. Reafirmar os valores da biblioteca pública não é defender uma visão elitista nem saudosista. É defender a coerência institucional. É reconhecer que, numa sociedade democrática, existem funções distintas e que a clareza dessas funções é o que permite servir melhor a comunidade. A biblioteca pública é o lugar do acesso livre ao conhecimento. É o espaço onde se forma o leitor desde a primeira infância. É o território da aprendizagem contínua. É o ponto de encontro entre tradição e inovação. É a casa comum da palavra escrita e da informação credível. Quando preserva esta identidade, torna-se insubstituível. Quando a dilui, corre o risco de perder a razão pela qual foi criada. Num tempo em que tantas instituições culturais enfrentam desafios de relevância e sustentabilidade, a biblioteca pública continua a ser uma das estruturas mais respeitadas e confiáveis da vida comunitária. Honrar essa confiança exige fidelidade à sua missão. Porque uma biblioteca que abdica do livro abdica do seu coração. E uma comunidade sem uma biblioteca fiel à sua essência perde muito mais do que um edifício. Perde um dos seus pilares de liberdade, de conhecimento e de futuro.
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