“Salvem a Ponte da Lagoncinha!”
A ponte é uma das mais extraordinárias invenções humanas. Não apenas porque vence rios, vales ou abismos, mas também porque recusa uma condição fundamental da existência humana: a separação. Desde os primeiros troncos lançados sobre cursos de água até às estruturas que hoje redesenham horizontes urbanos, as pontes representam a persistência de uma ideia simples e poderosa: nenhuma margem deve ser definitiva. Ao longo dos séculos, as sociedades aperfeiçoaram a arte de construir pontes. Dos primeiros troncos e pedras alinhadas sobre cursos de água aos arcos de pedra dos romanos, das pontes medievais que animavam cidades e rotas comerciais às grandes estruturas suspensas e estaiadas da modernidade, a história das pontes acompanha a própria história da civilização. Construir uma ponte nunca foi apenas resolver um problema técnico: foi sempre um gesto de ligação, uma recusa em aceitar que um obstáculo definisse para sempre os limites do possível. Recentemente atravessei a Ponte da Lagoncinha, esta é uma ponte que não se atravessa apenas: experiencia-se. Percebe-se, quase de imediato, por que há quem lute pela sua conservação com uma convicção que não é apenas racional. Não se trata apenas de pedra, nem apenas de engenharia, nem sequer exclusivamente de património classificado. Há estruturas onde o tempo se deposita como um sedimento invisível. A Ponte da Lagoncinha é uma dessas raridades. De origem medieval, a ponte cruza o rio Ave entre Lousado e Santo Tirso como um vestígio persistente de uma paisagem que resiste à pressão de um território intensamente industrializado. Os seus seis arcos desiguais, alguns de volta perfeita, outros quebrados, o tabuleiro estreito de lajes de granito, o ligeiro declive e os........
