Aniversário de Nelson Rodrigues
Ontem, estávamos Paulo César Fradique, Carlos Gilberto, Tarcísio Patrício, Zé Soares e eu num bar do Recife. E de repente, não mais que de repente, baixou à mesa Nelson Rodrigues. Sem associar o gênio a seu aniversário, que nem sabíamos, passamos a lembrá-lo com entusiasmo.
Rimos muito, como daquela tirada de Nelson Rodrigues num debate da televisão, onde se tentou provar que o zagueiro do Fluminense havia cometido um pênalti. O apresentador exibiu um videoteipe onde aparecia o jogador do Fluminense, time de Nelson, derrubando o atacante do Flamengo dentro da pequena área. Resposta imediata de Nelson:
Mas a presença de Nelson Rodrigues no seu aniversário, neste domingo, pode ser retomada com a homenagem que lhe dediquei no Dicionário Amoroso do Recife. A seguir.
Nelson Rodrigues, o craque imortal
O recifense Nelson Rodrigues, desde o nascimento em uma sexta-feira, 23 de agosto de 1912, atravessou muitas vidas e rostos. E contradições das mais diversas, entre elas até a sua origem de nascimento e natureza. Por exemplo, já aqui, escrevemos “recifense”, e nisso não houve qualquer despropósito para um escritor tido tantas vezes como carioca. Pois falam sempre de Nelson como um escritor do Rio pelos temas e formação, quando nada falam por haver chegado aos 4 anos de idade à cidade do Rio de Janeiro.
De passagem, olhemos a referência mais ressaltada de Nelson Rodrigues: a obra teatral. Ora, o seu teatro exigiria um estudo além da frase exterior no palco, além da paisagem, do “óbvio ululante”, como diria ele. Penso que o seu teatro vem de certo e tenebroso Pernambuco. Aqueles delírios patológicos dos personagens, aqueles conflitos fundos que sobem à cena, fazem parte da repressão sexual da casa-grande de Pernambuco. Das sinhazinhas e senhores escravocratas vêm aqueles incestos, paixões impossíveis dentro do lar mais suburbano. Aqueles devaneios à margem da sala de visitas não são bem a escolha de um escritor carioca à procura da originalidade. Vêm antes de uma herança espiritual de senhores de engenho que se espraiou pela gente do Recife. De um ponto de vista factual e do ser, a opressão dos engenhos acompanhou a família pernambucana de Nelson Rodrigues até o Rio de Janeiro. Ou como ele próprio confessou, numa entrevista a Hélio Pellegrino:
“Eu tenho uma experiência, aliás, já citei isso, a minha primeira experiência erótica é anterior à minha memória. Eu não me lembro de nada e este fato só foi referido muito posteriormente. Um dia apareceu lá em casa uma santa senhora, vizinha, mãe de uma menina de uns quatro anos, para dizer que qualquer filho de minha mãe poderia entrar na casa dela, menos eu. O negócio teve um tal toque de inocência e de pureza que eu não me lembro de nada. De vez em quando faço um esforço, começo a escavar na memória e não tenho a menor noção do que eu teria feito para justificar a ira da santa senhora. O meu ambiente familiar era, sob este aspecto erótico, de um grande rigor. Eu disse o meu primeiro palavrão aos doze anos de idade”.
Isso posto, mal posto, já se vê, porque fomos breves, chegamos afinal a nosso porto e destino. Neste ponto, copio a frase do grande Ivan Lima, quando começava a narração do futebol nos rádios recifenses: “Abrem-se as cortinas do espetáculo”. E nós víamos pelos olhos da imaginação o estádio de futebol com essas palavras. Agora, também se abrem as cortinas do........
