A coroa de Anitta veio das mãos de Eloína — e a história começa muito antes de Virginia
A cena poderia ser lida apenas como mais uma coroação no calendário do Carnaval, mas a Grande Rio produziu, na noite deste domingo, uma imagem que carrega quase cinco décadas de memória do samba, da cultura negra e da presença travesti na construção da festa brasileira: Anitta recebeu sua coroa das mãos de Eloína dos Leopardos, a travesti que, em 1976, entrou para a história ao ocupar o posto de primeira rainha de bateria da Beija-Flor.
Antes de receber a coroa, Anitta preparou o sentido daquela passagem. Diante da quadra da Grande Rio, evocou seu orí, pediu licença às pessoas que vieram antes dela e chamou Eloína para ocupar o centro da cerimônia como representante de uma linhagem que antecede a própria artista.
“Se hoje uma coroa há de tocar o meu orí, que venha das mãos de quem me guarda, me guia e abre os meus caminhos”, disse Anitta, antes de apresentar Eloína como “a travesti que abriu caminho para que tantas outras pudessem reinar”.
A escolha da palavra é importante porque desloca a coroação do campo da celebridade para o território da memória. Eloína não aparece apenas como uma personagem histórica do Carnaval, mas como alguém cuja trajetória permite compreender que determinados lugares, hoje disputados por artistas de enorme projeção pública, foram construídos também por corpos que precisaram........
