A pedagogia do escárnio contra as mulheres e suas implicações legais
A questão em tela, por emblemática de uma idiossincrasia histórica, extrapola o debate eleitoral. Passado o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, circulou no Instagram uma imagem que resume o modo como parte do país deseja ver as mulheres na política. No alto, em letras garrafais, lia-se “TCHAU,”, em branco, e “QUERIDAS”, em laranja. Abaixo, seis retratos em preto e branco, enfileirados como numa galeria de procurados ou numa página de obituários: Manuela d’Ávila, Gleisi Hoffmann, Simone Tebet, Marina Silva, Benedita da Silva e Soraya Thronicke. Sob cada rosto, nome, partido, estado e um carimbo vermelho: “NÃO ELEITA”. A legenda fechava a cena com uma convocação litúrgica: “Novos rumos o Brasil está para seguir! Digite amém”. O áudio que acompanha o vídeo tem no título um imperativo: “Não ria”.
A peça foi publicada pelo perfil @tarcisiospgovernador, que exibe o nome e as cores do governador reeleito de São Paulo, mas se apresenta como página de apoiadores. A conta oficial de Tarcísio de Freitas é outra. O detalhe importa menos do que parece. Para os mais de 339 mil perfis que curtiram a imagem, os 42 mil que a comentaram e os quase 87 mil que a repassaram adiante, a autoria aparente era a do governador, e a mensagem vinha embalada pela autoridade de quem acabara de vencer no primeiro turno, aparentando veredito institucional.
As seis mulheres disputaram o Senado e ficaram em terceiro ou quarto lugar. Perderam no voto. Nenhuma peça equivalente celebrou, com iguais estética e alcance, a derrota de homens. O que transforma um resultado eleitoral em espetáculo não é a derrota, mas o sexo de quem foi derrotada, portanto. A escolha das palavras não deixa dúvida: “Tchau, querida” foi a despedida de Lula a Dilma Rousseff na ligação grampeada ilegalmente e divulgada em março de 2016 pelos operadores da Lava Jato. Em poucas semanas, a frase virou camiseta, outdoor e meme, e chegou aos assuntos mais comentados no dia em que o Senado votou pelo afastamento da primeira presidenta do país. Dez anos depois, o bordão voltou no plural. O que era a despedida de uma mulher se torna a despedida das mulheres.
O uso do plural junta sob um mesmo vocativo trajetórias que pouco têm em comum: uma gaúcha de formação comunista, uma ex-presidenta do Partido dos Trabalhadores, uma ex-ministra do Planejamento vinda do agronegócio sul-mato-grossense, a principal voz ambientalista do país, a primeira senadora negra da República e uma senadora eleita em 2018 na onda bolsonarista que depois rompeu com ela. O que as une, aos olhos dos autores da montagem, é o fato de serem mulheres associadas, em maior ou menor grau, à defesa da igualdade.
“Querida” é vocativo de intimidade e condescendência, tratamento dispensado a quem não se leva a sério. O preto e branco e o carimbo vermelho completam o recado: a derrota é apresentada como sentença, e a saída de cena, como alívio. O amém pedido na legenda converte a festa partidária em graça recebida.
A cientista política Mona Lena Krook dá nome a esse tipo de ato: violência semiótica, o uso de palavras, imagens e gestos para ferir, disciplinar e subjugar mulheres na política. Sua marca distintiva é a significação pública. Embora atinja mulheres individualmente, envia a todas a mensagem de que, como grupo, não são dignas daquele espaço. “Tchau, queridas” não fala apenas com Manuela, Gleisi, Simone, Marina, Benedita e Soraya. Fala com a vereadora que pensa em disputar a prefeitura, com a militante que cogita uma candidatura, com a jovem que nunca considerou a política um lugar para si. Anuncia a todas o que as espera.
Rosto de mulher, estrutura de homem
Seria confortável ler a imagem como sintoma de uma direita que simplesmente rejeita mulheres. A eleição de 2026 desmente essa leitura. Na mesma noite em que as seis........
