O Neo-Messianismo: o uso do sagrado pela extrema direita
A imagem que circula amplamente nas redes sociais de Donald Trump, e que vale a pena ser descrita com cuidado antes de qualquer análise, porque cada detalhe dela é um argumento. Trump aparece no centro da composição vestido com túnica branca e manto vermelho, numa cena de cura miraculosa: um homem doente está deitado e recebe o toque de suas mãos, das quais emana uma luz dourada. Ao redor, figuras em posição de reverência, entre elas uma mulher com as mãos postas em oração, um soldado com o olhar erguido, uma enfermeira. Ao fundo, a bandeira americana, a Estátua da Liberdade, fogos de artifício, jatos militares, águias de asas abertas, e no alto, soldados ascendendo ao céu em glória.
A composição lembra menos os grandes mestres do barroco católico e mais os folhetos das Testemunhas de Jeová, aquela luz amarelada irradiando do centro, as figuras em semicírculo com expressão de êxtase contido, a cena de cura com toque das mãos, tudo numa estética deliberadamente popular, feita para convencer e não para contemplar. A mistura de símbolos militares americanos exala o teor cafona patriótico-religioso e tem sua própria lógica emocional.
Escrevo isso como alguém que foi formada no catolicismo e que se tornou ateia com o passar dos anos, o que talvez me dê um lugar de fala específico nessa discussão: não olho para a religião de fora sem nunca ter pertencido a ela, mas de dentro de uma tradição que conheço bem, e é justamente por isso que consigo identificar o que está sendo distorcido. O que a extrema direita faz com........
