Juventude e futuro: do otimismo ao desalento
No debate público contemporâneo, um fato tem chamado a atenção: as gerações mais jovens — sobretudo a Z (nascidos entre 1997 e 2010) e a Alfa (nascidos a partir de 2010) e, com menor intensidade, a Y ou Millennials (nascidos entre 1981 e 1996) — parecem atravessar o presente com um forte sentimento de desalento, fatalismo e descrença no futuro. Essa tonalidade psicológica e cultural contrasta com o que se observou nas gerações que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, como os baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) e a geração X (nascidos entre 1965 e 1980), cujas trajetórias contaram com um horizonte de expectativas de progresso, de expansão econômica e de construção coletiva de um mundo mais justo.
É incontestável que o pós-guerra inaugurou um período de otimismo político e econômico. A reconstrução da Europa, os Estados de bem-estar social em expansão e a redução da miséria global criaram uma narrativa poderosa de que a sociedade podia, de fato, ser transformada. Para a geração que então emergia, a noção de progresso — tanto material quanto moral — era um eixo orientador de políticas, instituições e projetos de vida.
A transição para o neoliberalismo, a partir dos anos 1980, alterou esse quadro. Ao mesmo tempo em que a tecnologia avançava de forma espetacular e redesenhava o mundo do trabalho, a renda se concentrava, as desigualdades cresciam, e a estabilidade no emprego e a previsibilidade de futuro eram substituídas por flexibilidade e incerteza constantes. A lógica do empreendimento individual — do “empreendedor de si mesmo” — tomou o lugar de carreiras estáveis e de vínculos coletivos. Essa mudança não foi apenas econômica, mas antropológica: abriu espaço para um ultraindividualismo que corroeu expectativas de solidariedade social.
Durante os anos 1960, 70 e até o início dos anos 80, a efervescência cultural e comportamental acompanhou as transformações sociais em curso. O movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, o feminismo de segunda onda, a contracultura, a luta contra o colonialismo e o racismo, os movimentos estudantis e a ampliação dos direitos sexuais formaram um conjunto de forças transformadoras com forte mobilização social. A crença em um mundo mais livre, igualitário e solidário não era apenas um desejo, mas uma convicção coletiva compartilhada.
Essa efervescência se expressou também nas artes e na música, com a explosão jovem do jazz e do rock no plano internacional e da bossa nova no plano nacional, como expressões de uma geração que irradiava felicidade e buscava liberdade, criatividade e ruptura com os valores conservadores.
O ideal socialista, inspirado na Revolução Soviética e, posteriormente, nas revoluções chinesa e cubana, exerceu papel central nesse período: foi fonte de esperança para milhões de jovens em todo o mundo e, ao mesmo tempo, um fator de pressão que influenciou o grande capital a fazer concessões para evitar revoluções. Não havia, então, hegemonia plena: havia disputa de projetos, de grandes blocos políticos no mundo.
No Brasil, esse ciclo assumiu contornos próprios, profundamente marcados pela ditadura militar (1964–1985). A supressão das liberdades democráticas, a censura e a repressão estimularam amplos movimentos de resistência, nos quais a juventude desempenhou papel central. Estudantes, artistas, intelectuais e militantes protagonizaram tanto a oposição cultural quanto a luta política organizada contra o regime autoritário, construindo, sob condições adversas, um horizonte coletivo de democratização.
Nos anos finais da ditadura, esse processo deu lugar a uma vigorosa rearticulação da sociedade civil. O novo sindicalismo urbano, os movimentos sociais de........
