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Por onde recomeçar?

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As derrotas são mais profundas e mais prolongadas quando se confundem as causas que as produziram, se evitam as correções de rota e se adotam “saídas” que agravam os erros. O governo Lula e a esquerda viveram um desastre nas eleições brasileiras deste domingo (4/10). Ao contrário do que previam todas as pesquisas, o presidente terminou o primeiro turno 2,2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro — e, o que é mais significativo, 3,4 milhões abaixo do que recebeu há quatro anos, quando a máquina do Estado funcionava contra si e a favor de seu adversário. Sua votação decresceu em 98% dos municípios.O PL, principal partido da ultradireita, elegeu 121 deputados e 28 senadores, tornando-se a maior bancada nas duas casas. As agremiações ligadas ao Centrão, embora ligeiramente reduzidas, terão cerca de 250 representantes na Câmara e 35 no Senado, o que tornará mais fácil a formação de alianças para alterar a Constituição ou decretar o impeachment de ministros do STF. Caso eleito, Flávio poderá indicar quatro integrantes à corte, alterando substancialmente a correlação de forças interna. Que motivos levaram a estes resultados? Como evitar que ele se consolide, convertendo-se em hegemonia política prolongada da ultradireita? Qual o sentido essencial da mudança de rumos necessária à esquerda?Nas mídias comerciais e na exuberância caótica das plataformas, multiplicam-se as interpretações. Algumas são pontuais. Fala-se, por exemplo, na ausência ao debate da Globo, na relação muito próxima com Alexandre de Moraes, na abordagem de temas que seriam supostamente distantes do cotidiano das maiorias, como as terras raras. Entre as interpretações sistêmicas, três delas parecem especialmente duvidosas: a) A derrota principal não teria sido da esquerda, cujas bancadas caíram pouco. O movimento essencial captado pelas urnas foi um deslocamento dos votos no interior da direita — das correntes mais moderadas e fisiológicas do Centrão para as mais ideológicas e radicalizadas do PL e Novo; b) O resultado seria produto de uma mudança na natureza dos processos eleitorais e políticos. Agora, os interesses e aspirações materiais da sociedade já não desempenhariam papel central, pois teriam cedido espaço à afirmação subjetiva dos eleitores, ainda não compreendida pela esquerda; c) Em função destes dois fatores, seria de se esperar um inverno político — um período prolongado de hegemonia da ultradireita e direita sobre a vida política do país.Há nestas três interpretações elementos importantes para uma análise mais ampla do pleito. O problema é o que elas negam ou omitem: Lula III foi um governo pequeno, que não ofereceu às maiorias que o elegeram nem uma vida nitidamente melhor, nem motivos para voltar a acreditar na política e em seu papel transformador. Estes fracassos deveram-se a duas acomodações fatais, que serão examinadas adiante. Em consequência delas, o governo sofreu desgaste lento, porém constante. E ofereceu à ultradireita, como tem ocorrido em tantos países do Ocidente, a oportunidade de apresentar-se como antissistema e de se beneficiar do descontentamento e das aflições populares.

A visão que destaca em primeiro lugar a migração de votos do........

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