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Passos Coelho regressou, ainda bem

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12.03.2026

1.  Na manhã em que acordámos com António José Seguro como Presidente da República, Luís Montenegro como primeiro-ministro e André Ventura como líder da oposição, ouvi um comentador político próximo de Passos Coelho, Pedro Gomes Sanches, dizer que vivíamos, no fundo, um clima de instabilidade porque nada se decidia. Apontava como exemplo a dificuldade em escolher nomes para a Provedoria de Justiça ou o Tribunal Constitucional.

A observação é legítima e tem base factual. Mas também revela algo mais. Somada a outras intervenções semelhantes, ajuda a compor uma narrativa política que serve de suporte às ambições de Passos Coelho.

Ninguém tem dúvidas sobre os propósitos do ex-primeiro-ministro. Mas assistir a pessoas do seu círculo mais próximo a repetir exatamente a mesma mensagem que ele próprio vai deixando nas suas constantes aparições públicas torna tudo ainda mais transparente.

O próprio Passos Coelho reconhece − e bem − que é um político profissional. É a sua vida. Provavelmente foi por causa da atividade política, a mais nobre das atividades públicas, que se licenciou tão tarde e que hoje não tem grandes alternativas profissionais fora dela. Mas mesmo que as tivesse, a política seria sempre o seu mundo.

Não tenho grandes dúvidas de que exista também ressentimento. Por ter ficado em primeiro lugar numa eleição e não ter mantido o cargo. Por Montenegro não lhe prestar as vénias que considera devidas. Por o País não lhe reconhecer suficientemente o mérito do seu (pouco) brilhante mandato.

Mas isso, no essencial, é irrelevante. Seja por achar que pode fazer muito pelo País, seja por qualquer outra coisa, Passos Coelho é um político e um político precisa de e quer poder. Os políticos são assim e é assim que devem ser.

Um ex-primeiro-ministro com 61 anos, que não quis ser candidato a Presidente da República e que intervém publicamente com a frequência e o tom que conhecemos não está propriamente à espera de que alguém se lembre dele para presidente da junta de freguesia de Massamá ou para comentador.

Não vale a pena fingir o contrário. Passos Coelho quer voltar a ser primeiro-ministro e está em campanha.

Tem programa. Tem alianças desenhadas. Tem vozes na comunicação social a amplificar a sua mensagem. E tem até o diretor de operações habitual: o inefável Miguel Relvas.

A ambição de regressar a São Bento existe desde o dia em que de lá saiu. Só que o diabo não apareceu, a Geringonça funcionou, António Costa conseguiu duas maiorias − uma delas absoluta − e o desconsiderado Montenegro chegou a primeiro-ministro. Para cúmulo, uma sua criação tornou-se líder da oposição e está a tirar-lhe o espaço que ele julgava ser só seu. 

Passos Coelho tem assim pressa, muita pressa. Mas o desespero raramente é bom conselheiro.

Como o Ministério Público não parece disposto a derrubar Montenegro e como já se percebeu que, mesmo que o primeiro-ministro venha a ser constituído arguido por tudo e mais alguma coisa, de São Bento não sai, de São Bento ninguém o tira, Passos Coelho aposta agora na criação de ruído político e na tentativa de gerar o máximo de instabilidade.

É aqui que a estratégia se torna confusa.

Acredita ele realmente que a pressão constante levará o PSD a afastar Montenegro e a escolhê-lo para líder, esperando depois que Seguro o convide para primeiro-ministro sem eleições? Seria um cenário inédito em Portugal e raro em qualquer democracia liberal.

Além disso, há um detalhe inconveniente: o próprio Passos disse que só voltaria a ser primeiro-ministro através de eleições.

Mas se houver eleições – que ele parece desejar até as pessoas quererem o que ele quer −, o mais provável é que as ganhe o Chega, segundo Passos Coelho, ou, acrescento eu, o PS. Nesse caso, onde é que o nosso ex-liberal entra? Vice-primeiro-ministro de Ventura?

Durão Barroso iniciou o processo, mas foi Passos Coelho quem transformou verdadeiramente o PSD num partido de direita radical. Muito distante das suas raízes ideológicas e da sua tradição política − Cavaco Silva é talvez o melhor exemplo disso.

A radicalização do partido teve vários protagonistas, incluindo o universo mediático que gravita em torno do Observador. Mas o homem decisivo foi o da “Troika além da Troika”, da saída da “zona de conforto”, da desvalorização do trabalho, da imigração, mas “não com estes”, da insegurança que “estes” trazem, das reformas estruturais que ele define como boas.

O problema é que quem acabou por colher os frutos desse discurso não foi Passos Coelho. Foi André Ventura.

É provável que o PSD recebesse o ex-primeiro-ministro de braços abertos, ainda que com algumas resistências internas, e aceitasse a sua proposta de fazer um bloco de direita radical. Mas o eleitorado do partido ficaria profundamente dividido.

Convém lembrar três coisas. Primeiro, Montenegro sentiu-se obrigado a prometer linhas vermelhas com o Chega. Segundo, vários estudos mostram que mais de metade do eleitorado tradicional do PSD não votaria no partido se houvesse uma aliança com Ventura. Terceiro, muitos eleitores do PSD e da Iniciativa Liberal preferiram votar em Seguro apenas para impedir a chegada do populista a Belém.

Ou seja: a estratégia de Passos Coelho poderia transformar o PSD num partido mais pequeno do que o Chega – e com isso levar à sua irrelevância e à sua morte.

Ainda assim, a eventual entrada de Passos Coelho em campo tem um mérito: clarificar o espaço político do centro-direita.

A questão passa a ser outra. Esse espaço de centro-direita ainda existe em Portugal? O que farão os políticos e eleitores que tradicionalmente o ocupavam? Cederão ao radicalismo? Criarão um novo movimento? Procurarão refúgio num PS moderado?

O pouco otimismo que me resta diz-me que ainda haverá quem recuse que o confronto político em Portugal se reduza a uma escolha entre extrema-direita e centro-esquerda.

Receio, no entanto, que esse otimismo seja apenas uma esperança vã.

2. O novo Presidente da República tomou posse.

Espero que cumpra com rigor as suas funções. Que seja afirmativo e interventivo. Que reveja algumas das suas posições sobre Justiça. Que não tolere do primeiro-ministro o que Marcelo Rebelo de Sousa teve de tolerar neste último ano. Que seja mais do que um auxiliar do Governo. E que se abstenha de interferir na vida interna do PS ou de alimentar vinganças espúrias.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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