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780 mil votos no silêncio - Quando ficar em casa passa a ser uma escolha política

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22.01.2026

Há eleições que não se medem apenas em percentagens. Medem-se em atmosfera: no tipo de conversa que passa a ser “normal”, no modo como tratamos quem discorda, no respeito que exigimos às instituições – e, sobretudo, na ideia de país que queremos pôr em Belém como referência moral e constitucional.

Portugal já viveu segundas voltas que marcaram época. Em 1986, apesar de clivagens profundas, havia uma linha que não era posta em causa: as regras do jogo democrático. Quase quarenta anos depois, voltamos a ter uma escolha que transcende o quotidiano e entra no domínio do cultural e do cívico: ou reforçamos uma presidência moderadora, capaz de agregar e pacificar; ou aceitamos uma deriva de permanente confrontação, em que a política se confunde com espetáculo e a República com trincheira.

Na noite de 18 de janeiro, António José Seguro foi claro na chave com que quer ler este momento: “Regressei para unir todos os portugueses.” A frase é um programa para uma função que, não sendo executiva, é decisiva na proteção do Estado de Direito, no uso prudente dos poderes presidenciais e na preservação da decência como norma pública.

Logo aí deixou um critério de pertença que não exclui ninguém: “Somos um só povo, uma só nação, um só Portugal, plural e inclusivo.” E, ao mesmo tempo, procurou tornar inequívoca a distância que o separa do adversário: “Entre mim e o deputado André Ventura há um oceano de diferenças.” A imagem é forte e aponta para o essencial: não estamos apenas a escolher um estilo. Estamos a escolher se o Presidente será um árbitro constitucional ou um protagonista de conflito; um garante do pluralismo ou um amplificador de ressentimentos.

O ponto de partida é simples: numa segunda volta, a democracia não é apenas “quem ganha”; é também quem aparece. E, neste ponto, a comunicação social tem um papel decisivo: explicar, contextualizar e não normalizar a........

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