Parabéns Lula, pelos 81 anos e pela lição aos que julgam que o Brasil está à venda
Conheço suficientemente o Brasil para saber que ninguém conhece verdadeiramente o Brasil. Nem os próprios brasileiros, quanto mais nós, portugueses, que durante séculos imaginámos aquele imenso território como uma extensão tropical das nossas pequenas grandezas europeias, reduzindo-o frequentemente ao Morro dos Dois Irmãos, a Copacabana ou aos paraísos turísticos do Nordeste. O Brasil é um continente disfarçado de país, com múltiplas identidades, contradições, culturas e maneiras de olhar o mundo. Não se compreende o Nordeste a partir de uma varanda em Copacabana, nem se explica a Amazónia nos escritórios climatizados da Avenida Paulista. Brasília é uma extraordinária invenção arquitetónica de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, mas também uma cidade onde os corredores do poder raramente conduzem aos interesses de quem vive fora deles.
Para mim, o Brasil é um segundo país, por razões familiares, culturais e afetivas. Um território que percorri de Norte a Sul, com Lisboa a encontrar no Rio de Janeiro uma espécie de irmã mais velha, infinitamente mais exuberante, menos disciplinada, bastante mais divertida, mas também mais perigosa e insegura. Conheço São Paulo, Brasília, o Rio e muitos outros Brasis que não aparecem nos folhetos das agências de viagens. E conheço-os através de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis, da música de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, do cinema de Glauber Rocha a Walter Salles, das artes plásticas, da arquitetura e das telenovelas – essas produções da Globo que, a partir do final dos anos 70 e sobretudo na década de 80, entraram pelas salas portuguesas e ajudaram a transformar mentalidades, abordando conflitos de classe, sexualidade e comportamentos sociais que a nossa televisão ainda tratava com uma prudência quase paroquial. E, já agora, com o meu grande fetiche de juventude: Sónia Braga, que finalmente conheci no Festival de Cannes, por ocasião da apresentação de Aquarius (2016), do meu camarada da crítica, entretanto transformado em grande realizador, Kleber Mendonça Filho. Confessei-lhe o meu fascínio. Sobrevivi ao encontro.
Acompanho, por isso, a política brasileira quase tão atentamente como a portuguesa. E foi com essa proximidade que assisti à noite de domingo, 25 de outubro, quando Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu aquilo que, três semanas antes, parecia improvável: virar uma eleição presidencial que começara por perder e conquistar um quarto mandato. Com 51,79% dos votos, mais de 64 milhões de brasileiros deram-lhe a vitória contra os 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença superior a 4,4 milhões de votos, confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Não foi um milagre. Foi política, mobilização e capacidade de reconhecer erros. A abstenção diminuiu e os eleitores perceberam que estava em causa mais do que a escolha de um Presidente.
O operário que nunca aprendeu a desistir
A 27 de Outubro, Lula completa 81 anos. É difícil imaginar uma prenda de aniversário mais extraordinária para um homem habituado a sobreviver a derrotas, adversidades, processos judiciais, prisão e ressurreições políticas. Nasceu em Garanhuns, Pernambuco, numa família pobre, migrou ainda criança para São Paulo, trabalhou como engraxador e operário, tornou-se torneiro mecânico e uma figura central do sindicalismo durante a ditadura militar. Fundou o Partido dos Trabalhadores com outros sindicalistas e intelectuais, perdeu três presidenciais consecutivas e chegou finalmente ao Planalto em 2003. Foi reeleito em 2006, regressou em 2022 e repetiu agora a proeza.
O antigo metalúrgico de São Bernardo do Campo tornou-se uma figura internacional nas discussões sobre pobreza, desigualdade e relações entre o Norte e o Sul globais. É também um Presidente controverso. Lula não é um santo, não é infalível e o PT não tem um cadastro político imaculado. Os escândalos que marcaram a história do partido........
