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O que fica quando a água secar?

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13.02.2026

Há dias em que olhar pela janela pesa mais do que devia. Tudo está no seu lugar e, ainda assim, a angústia sobe ao lembrar que, naquele mesmo momento, há quem tenha perdido o que levou uma vida inteira a construir.

Nas localidades afetadas pelas tempestades, a perda não é abstrata. Está nas portas inchadas que já não fecham, nos móveis empilhados à pressa, nas ruas onde o silêncio substituiu o movimento. Casas destruídas. Negócios parados. Pessoas a tentar perceber por onde se recomeça quando o chão falha.

O que se perde não é apenas material. Perde-se segurança, rotina, a ideia de futuro tal como era conhecido. Tudo fica suspenso entre o antes e o depois.

No meio disso, há gestos pequenos que seguram tudo: alguém que ajuda a limpar, quem oferece um café quente, quem fica ali só para não deixar o outro sozinho. Não apagam a perda, mas impedem que ela seja vivida em isolamento.

Quando regressamos a casa, o desconforto não é culpa. É consciência. É saber que a tempestade passou para uns, mas continua para outros.

Talvez o mais importante agora seja isto: não fechar demasiado depressa este capítulo. Não transformar estas histórias em mais uma notícia que se esquece. Continuar atentos, disponíveis, solidários.

Porque para estas comunidades, a tempestade terminará em breve. Mas o impacto, esse permanecerá por décadas.

E quando as câmaras partirem e o ruído diminuir, começará outra fase: a de reconstruir por dentro aquilo que a água levou por fora.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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