menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Prémio Laranja Amarga para quem não sabe dizer a Passos que "não é não". Diário do Governo, de Eduardo Cabrita

18 0
09.03.2026

A semana portuguesa é marcada pela dimensão institucional do início do mandato presidencial de António José Seguro e pelo impacto no bolso dos portugueses da guerra iniciada por Israel e pelos Estados Unidos contra a teocracia iraniana.

O Presidente Seguro marca um novo tempo em democracia, como o primeiro chefe de Estado nascido para a vida cívica já depois do 25 de Abril, pois mesmo o abstencionismo tecnocrático de Cavaco não era inocente, e que assume o mandato com a legitimidade reforçada de quem obteve a maior votação de sempre com mais de 3,5 milhões de apoiantes na segunda volta.

Chega a Belém por mérito próprio, apurado sentido de oportunidade e a sorte das circunstâncias que premeia os audazes, quando há um ano estava longe de ser o candidato óbvio de grande parte dos socialistas e até três meses antes das eleições tinha sondagens que diziam ser improvável a ida à segunda volta. É paradoxal que o primeiro socialista a chegar a Belém no século XXI coincida com a maior maioria política, sociológica e comunicacional de direita de sempre.

Marcelo marcou a Presidência com a proximidade popular e a dessacralização da função feita por um filho da elite do Estado Novo.

Foi, no primeiro mandato, um leal parceiro institucional da “geringonça”, solução política e constitucionalmente insólita que assegurou a estabilidade, cumpriu a legislatura, recuperou o ânimo coletivo depois dos tempos sombrios da troika e colocou a economia a crescer, com “contas certas”, acima da média europeia.

No segundo mandato, o Presidente Marcelo acentuou a recaída na longa experiência de comentador obsessivo, foi fator de instabilidade com sucessivas dissoluções parlamentares precipitadas e terminou o ciclo presidencial a conviver com o regresso ao poder da sua família política, mas com uma liderança com que não tinha empatia, e a ser alvo preferido da emergente extrema-direita.

No pêndulo dos tempos, a bolha politico-mediática cansou-se do hiperativismo presidencial, e da inerente maximização intervencionista dos poderes presidenciais, mas o povo está já com antecipadas saudades dos “afetos”, da ida a todas as festas e funerais e da irrequietude tantas vezes genuinamente contraditória.

Mas, para a vida comum dos portugueses, o tema da semana vai ser a primeira vaga de impacto nos bolsos e orçamentos familiares da nova guerra trumpista, manifestamente impopular por maior que seja o absurdo do regime dos clérigos medievais de Teerão, com os maiores aumentos de sempre dos combustíveis, antecedendo um provável descambar da inflação se o conflito se prolongar.

Perante a eleição de Seguro e a nova guerra imperial, a mediocridade política de Montenegro e do seu Governo desbaratam o que poderia ser a oportunidade para um “novo começo”, com o renascimento da governação após quase dois anos de calculismo e de permanente espírito de campanha eleitoral.

António José Seguro é, provavelmente, o melhor Presidente com que Montenegro poderia sonhar. Com o distanciamento de não ser oriundo da sua área política, mas provando nas urnas que pelo menos 75% dos eleitores da AD preferem o entendimento com um socialista moderado do que a convergência com a extrema-direita e com um perfil institucionalista que garante ser um firme defensor da estabilidade, o novo Presidente da República dá a Montenegro a base que lhe permitiria libertar-se do permanente taticismo, começar a governar e corresponder ao sentimento da esmagadora maioria dos seus apoiantes.

Mas Luís Montenegro, na sua obsessão pela mera sobrevivência, começou por desperdiçar a oportunidade de dizer mesmo que “não é não” a André Ventura com a sua cobarde equidistância na segunda volta das eleições presidenciais.

Voltou a estar ainda pior na última semana ao dar uma resposta de mero jogo partidário sem rasgo ao desafio estratégico lançado por Passos Coelho.

O antigo líder do PSD tem razão quando diz que o Governo de Montenegro está paralisado e reduzido ao anúncio de planos e à apresentação de PowerPoints. Mas a solução proposta por Passos, uma aliança expressa entre o PSD, o Chega e a IL, é a opção expressamente rejeitada pelos eleitores da direita democrática na segunda volta das eleições presidenciais.

Em vez de ter a clareza de dizer a Passos que a maioria dos eleitores do PSD achariam horrível ter Ventura como vice-primeiro ministro e não querem a Reforma Laboral tão desejada pela IL, Montenegro repete o erro das presidenciais e refugia-se no pequeno jogo da manutenção no poder sem desígnio visível e com uma agenda política e legislativa congelada.

A hipocrisia na relação com os Estados Unidos na questão iraniana, servil, mas sem apoiar o ataque, e a falta de solidariedade com os parceiros europeus ameaçados por Trump, só reduz ainda mais a credibilidade e espaço estratégico do Governo de Montenegro, sobretudo se as consequências internas da guerra levarem a uma rápida degradação do ambiente económico.

Tal como desbarata, com o temor de enfrentar Passos Coelho, a oportunidade única de uma convergência democrática e europeísta com o novo Presidente da República e o PS de José Luís Carneiro, também nas medidas de resposta aos efeitos da crise petrolífera está a ser poupadinho e sem rasgo, na ânsia de ganhar tempo e gastar pouco, tal como o foi anteriormente nas medidas limitadas de resposta às tempestades.

Teremos muito tempo para perceber o estilo presidencial de António José Seguro, e infelizmente os efeitos da nova guerra no Médio Oriente também estão aí para durar, mas pela sua falta de rasgo e incapacidade de perceber a mensagem das eleições presidenciais, rejeitando o Bloco de Direita de Passos, Luís Montenegro merece o prémio Laranja Amarga da primeira semana dos novos tempos para a política e a economia portuguesas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


© Visão