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Harry Potter e a magia das histórias em novos formatos

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06.03.2026

A saga Harry Potter é, sem dúvida, um dos maiores sucessos de sempre na literatura. Desde o lançamento do primeiro livro, em 1997, que a história fez — e continua a fazer — parte da vida de várias gerações em todo o mundo. O fenómeno ultrapassou as páginas dos livros e ganhou dimensão cinematográfica, somando mais de 600 milhões de exemplares vendidos e oito filmes que arrecadaram cerca de 7,7 mil milhões de dólares em bilheteira. Mas depois disto, o que é que ainda resta?

Resta ainda muito por reinventar. E, recorrendo a uma das falas mais conhecidas da história da saga, poder-se-ia perguntar: “After all this time?”. A resposta mantém-se após estes anos todos: “Always”.

Além de uma nova série televisiva prevista para 2027, a saga prepara-se agora para uma reedição em formato de audiolivro, através da Audible. Mas desengane-se se pensa que se trata de um simples audiolivro e de uma simples narração. Esta nova versão promete uma experiência verdadeiramente imersiva e inovadora nos audiolivros: mais de 100 atores dão voz às personagens, a banda sonora original foi composta por Nitin Sawhney e gravada por uma orquestra de 60 músicos, e a sonoplastia recorre a efeitos práticos — do som de um motor a vapor para o Expresso de Hogwarts aos ruídos que recriam os corredores da escola de feitiçaria.

Isto prova que as histórias verdadeiramente marcantes podem viver além do papel. Podem adaptar-se, expandir-se e encontrar novas formas de chegar ao público. E é aqui que entra o audiolivro.

Apesar de muitas vezes serem considerados uma alternativa para quem não tem tempo para ler ou para quem enfrenta barreiras físicas à leitura, essa perceção está a mudar. O crescimento do consumo de áudio, impulsionado pelo universo dos podcasts e pelo hábito de ouvir conteúdos enquanto estamos em movimento, trouxe uma nova perspetiva sobre os audiolivros. Aos poucos, começa-se a perceber que o áudio deixou de ser um substituto e passou a ser uma extensão.

E esta aposta numa saga como Harry Potter não é inocente. Se até um fenómeno desta dimensão pode ser reinterpretado em áudio com um grande investimento, isso diz muito sobre o potencial do formato. O audiolivro pode ser muito mais do que um narrador a ler um texto. Pode ser uma experiência sensorial complexa, quase híbrida, entre a literatura e o teatro ou cinema.

Mais do que uma estratégia de mercado, esta re-sonorização revela algo estrutural: as histórias sobrevivem porque se adaptam. Claro que há quem questione se uma produção tão elaborada não dilui o espaço da imaginação individual. Mas talvez a questão deva ser outra: será que a imaginação não encontra novas formas de se expandir quando estimulada por som, música e interpretação?

A reedição sonora de Harry Potter mostra que o futuro da leitura não está preso ao papel, mas também não prescinde dele. Está na multiplicidade de formatos, na capacidade de contar a mesma história de maneiras diferentes e de chegar a públicos distintos.

Se uns descobriram Hogwarts ao virar páginas e outros através do grande ecrã, outros poderão fazê-lo através de auscultadores. No fim, o que permanece não é o formato, mas a força da narrativa. E, ao que tudo indica, continuará a ser assim — after all this time.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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