China em alta: americanos estão bebendo água quente e jogando mahjong
China em alta: americanos estão bebendo água quente e jogando mahjong
Jovens americanos bebendo água quente, jogando mahjong, vestindo camisas com botões de nó e incorporando hábitos do cotidiano chinês.
Batizada de "chinamaxxing" —algo como a "maximização do estilo de vida chinês"—, a tendência se espalhou no TikTok e no RedNote (Xiaohongshu) nos últimos meses e virou um símbolo inesperado da disputa cultural entre China e EUA.
O fenômeno expõe o avanço, ainda que gradual, do soft power chinês: a capacidade de influenciar comportamentos, valores e imaginários por meio da cultura.
Se por décadas esse terreno foi dominado por Hollywood, pelo pop e pelas big techs americanas, Pequim passou a disputar espaço com uma estratégia que combina produção industrial de conteúdo, plataformas digitais e circulação global de símbolos culturais.
Não por acaso, a máxima do general prussiano Carl von Clausewitz —a de que a guerra é a continuação da política por outros meios— ganha uma releitura no século 21.
Em vez de tanques e soldados, entram em cena C-ramas (os doramas chineses), games, animações e influenciadores digitais como instrumentos de uma competição geopolítica travada no campo da atenção e do imaginário.
Responsável pelo Global Soft Power Index, a consultoria Brand Finance, de Londres, situou a China, em janeiro de 2026, como a segunda potência cultural do mundo, com 73,5 pontos, colada aos Estados Unidos, com 74,9.
No início de abril, pesquisa do Gallup mostrou que a "aprovação global" da China superou a dos EUA, por 36% a 31% —movimento puxado tanto pela alta chinesa quanto pela queda americana sob o segundo governo Trump.
No fim de 2025, levantamento do Chicago Council on Global Affairs indicou que 55% dos americanos defendem cooperação com a China, ante 40% um ano antes.
Segundo o World Travel & Tourism Council, o setor de turismo da China cresceu 9,9% em 2025, puxado por gastos de estrangeiros, e deve liderar o mundo até 2030, à frente dos EUA (0,9%).
Para o analista Zichen Wang, diretor no Centro para China e Globalização, instituição de pesquisa sediada em Pequim, todo esse avanço é reflexo natural do peso econômico e tecnológico do país —embora ainda distante de uma influência profunda.
"Seria até surpreendente se um país dessa escala não produzisse marcas, plataformas e produtos culturais com apelo internacional", afirma.
Esse soft power, porém, tem duas faces que nem sempre conversam. De um lado, há a versão dirigida pelo Estado —filmes patrióticos, narrativas oficiais, mensagens cuidadosamente calibradas.
De outro, uma onda espontânea, feita de jovens, designers e jogadores que descobrem a China pelo TikTok e pelo RedNote. As duas avançam em paralelo, e nem sempre na mesma direção.
Se o "chinamaxxing" representa a face espontânea do fenômeno, há também uma engrenagem industrial e estatal por trás do soft power chinês. Em meados de março, o UOL visitou por dois dias a cidade de Hengdian, no leste do país, conhecida como Hollywood do Oriente.
Ela abriga um dos maiores complexos de cinema, animação e TV do mundo, de onde saem muitos dos........
