O QUE ESSES BRASILEIROS SABEM
O QUE ESSES BRASILEIROS SABEM
O que você lerá abaixo é dos mais corajosos e lúcidos textos publicados no Brasil nas últimas décadas, se não for o mais. E com os nomes aos bois.
O QUE ESSES BRASILEIROS SABEM
POR JOÃO MOREIRA SALLES, na revista piaui
Daniela LimaCentrão se une ao mercado e vê vantagem de Flávio
Centrão se une ao mercado e vê vantagem de Flávio
SakamotoContra Lula, eleitor engole até a corrupção de Flávio
Contra Lula, eleitor engole até a corrupção de Flávio
Balaio do KotschoLula está isolado; não tem mais a equipe de antes
Lula está isolado; não tem mais a equipe de antes
Josias de SouzaNa reta final, Lula e Flávio disputam palavra 'mudança'
Na reta final, Lula e Flávio disputam palavra 'mudança'
Como se sabe, não existe contradição entre ser um grande artista e uma péssima pessoa. É o caso do escritor francês Louis-Ferdinand Céline. Em 1928, Céline, que era médico, publicou na revista técnica La Presse Médicale um artigo em que propunha criar, nas empresas, uma força médico-policial encarregada de convencer os operários de que adoecer não era razão para faltar ao trabalho. "A maioria dos doentes pode trabalhar", afirmou.
A seu juízo, não haveria muita resistência. A tarefa, na visão de Céline, precisava ser encarada como um trabalho; paciente de persuasão, dado que "o público não quer compreender; quer acreditar".
Como, em obras posteriores, Céline denunciaria os horrores do sistema fordista, é possível, bondosamente, deixar sobre a mesa a hipótese de alguma ironia por parte do escritor. Para o que nos interessa aqui, o essencial é essa clivagem entre compreender e acreditar.
Em 2022, muita gente se reuniu em frente de quartéis para pedir uma intervenção militar. Algumas pessoas ergueram as mãos para o céu e rezaram. Outras se reuniram em torno de um pneu e cantaram o Hino Nacional. Quem faz isso tem fé. Não quer compreender, quer apenas acreditar. É provável que aceite, sem contestar, a tese da fraude eleitoral, da volta do comunismo, da ação moralizante e desinteressada das Forças Armadas.
Não é dessas pessoas que pretendo falar aqui. Aos que buscam apenas acreditar, sem querer ou ter tempo para compreender, contrapõe-se outro grupo, cuja grande influência é inversamente proporcional a seu tamanho: o dos que compreendem muito bem e, justamente por isso, não acreditam. É desses que quero falar.
Nos dias que antecederam o último Sete de Setembro, algumas pessoas bem-postas receberam, via WhatsApp, uma convocação para sair às ruas e protestar contra os escândalos de Brasília. Como a data coincidia com o ato de Flávio Bolsonaro e seus aliados na Avenida Paulista, o chamado era, evidentemente, um alinhamento com a campanha do candidato do PL.
"Vamos mostrar que quem tem o poder supremo no Brasil é o povo brasileiro!", exclamava o enunciado em letras maiúsculas. Seguia-se uma fileirinha de bandeiras do Brasil e, abaixo dela, a ordem de marcha: "Segunda-feira, 7 de setembro, vamos todos às ruas!"
A mensagem fora enviada por um membro de uma das mais tradicionais famílias brasileiras, na qual se contam, ao longo dos últimos 150 anos, poderosos senadores, banqueiros ilustres, advogados imensos, embaixadores de prestígio e paladinos de embates civilizatórios na história do país. Presume-se que quem passou adiante o chamado estudou em boas escolas e dispôs de acesso à boa informação. É muito provável, também, que no ambiente familiar tenha desfrutado do privilégio de conviver com figuras que tinham histórias para contar sobre a vida em regimes de exceção. Algumas delas, inclusive, por terem se oposto ao ditador do momento.
É alguém que compreende, portanto. Sabe que Flávio Bolsonaro não representa um projeto político comprometido com o aprofundamento da nossa experiência democrática. Sabe que, fosse consumada a aposta violenta que resultou na depredação da Praça dos Três Poderes, hoje não estaríamos vivendo num regime aberto. E, porque compreende isso muito bem, não acredita na parolagem do candidato em defesa da democracia, dos direitos individuais e da liberdade de expressão. O que conta são outros valores, promessas implícitas na trajetória não exatamente do candidato Flávio, mas do candidato Bolsonaro. Interessa explorar no que gente assim acredita, o que quer e o que não considera importante.
Numa resenha do livro de Gisèle Pelicot, a dona de casa francesa que reagiu com bravura à violência sexual a que foi submetida pelo marido e por dezenas de outros homens, a crítica Parul Sehgal escreveu: "Todo escândalo, todo horror público, deixa atrás de si as mesmas perguntas amargas: Quem sabia? Quem desviou os olhos? O que Pelicot faz, de maneira brilhante e sutil, é formular a pergunta que a maioria evita - não quem, mas como?"
É uma boa formulação. Vale para crimes contra um só indivíduo, contra muitos e contra uma nação. Em todos esses casos, o como acontece quando se deixa de traçar no chão uma linha imaginária além da qual se diz, de si para si: "Daqui não passo." Os que, sob regimes de exceção, decidiram não ser cúmplices tiveram de travar essa conversa silenciosa com a própria consciência. A prática não exige "uma inteligência altamente desenvolvida nem uma grande sofisticação em questões morais, mas, antes, a disposição de conviver explicitamente consigo mesmo, de manter uma relação consigo mesmo", como escreveu Hannah Arendt.
Para tomar um exemplo, dentre tantos outros: Jair Bolsonaro dedicou seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Parte da população se lembra, parte já se esqueceu, parte nunca nem soube. Mas da gente de que trato aqui, todos - todos, sem exceção - sabem que isso aconteceu. Alguns, muitos, guardam na memória as palavras exatas ditas na ocasião pelo futuro presidente da República: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff." Atrás dele, seu filho Eduardo articulava com os lábios as mesmas palavras.
Flávio Bolsonaro jamais fez reparo algum às declarações do pai e do irmão. Pelo contrário. Sempre que lhe foi dada uma oportunidade de retificá-las, esquivou-se. Em 2016, quando candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, explicou que a homenagem feita por Jair seria "um contraponto" aos que, na oposição, dedicaram seus votos "aos heróis de esquerda". Em oposição aos heróis da esquerda, portanto, o herói do seu campo - Brilhante Ustra. "É a opinião dele, tem que ser respeitada", disse, defendendo o pai e encerrando a discussão.
É o caso, então, de olhar de perto para a trajetória de Brilhante Ustra. Não toda, apenas as passagens sustentadas por provas, decisões da Justiça e investigações oficiais. É um exercício penoso, do qual, no entanto, não deveria se eximir quem dá respaldo simbólico ao campo que celebra a vida deste homem.
Edgar de Aquino Duarte: ex-militar, dono de uma pequena imobiliária e corretor da Bolsa de Valores, atividades a que passou a se dedicar depois de deixar a militância política. O fato de não participar da resistência ao regime desde 1968 - levava a vida civil sob um pseudônimo para evitar a prisão - não impediu que, em 1971, fosse sequestrado e preso pela repressão. Ficaria no cárcere até 1973. A partir daí, não se conhece seu paradeiro.
Em 23 de outubro de 2012, a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal (MPF) de sequestro e desaparecimento de Duarte foi integralmente recebida pelo juiz federal Hélio Egydio de Matos Nogueira: "No caso dos autos, o acusado" - Brilhante Ustra - "foi o autor e possuía o domínio do fato criminoso consistente na privação ilegal da liberdade de Edgar de Aquino Duarte [...] nas dependências do Deops/SP, de onde a vítima desapareceu."
Família Teles: em 1972, Maria Amélia de Almeida Teles, o marido, César Teles, e a irmã Criméia de Almeida, grávida de 8 meses, foram presos e torturados no DOI-Codi de São Paulo, que Ustra comandou de 1970 a 1974. A Justiça de São Paulo reconheceu o coronel como responsável pelas sevícias.
Na época, os filhos do casal também ficaram em poder dos militares. Sobre uma certa tenente Neuza, acusada de os haver sequestrado, Maria Amélia declarou ao MPF: "Esta policial foi uma das sequestradoras dos meus filhos de 5 e 4 anos [...] Eu tinha visto no DOI-Codi/SP, no final de 1972, vésperas do ano novo, esta policial que circulava na parte superior daquele prédio, juntamente com o comandante Carlos Alberto Brilhante Ustra. Foi ela que entregou meus filhos ao Ustra, que os levou até a sala onde eu estava na 'cadeira de dragão'."
Em 2014, o STJ confirmou a decisão da Justiça de SP e reconheceu que o coronel praticou torturas durante o regime militar.
Luiz Eduardo da Rocha Merlino: o jornalista foi morto no DOI-Codi em 1971. Tinha 22 anos. Diz a sentença da 20ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo que a ação foi ajuizada contra o coronel "em decorrência de espancamento e atos outros de tortura comandados e praticados diretamente pelo requerido", ou seja, por Brilhante Ustra.
De acordo com a juíza Claudia de Lima Menge, "a prova oral deu integral respaldo ao relato [...] Narraram as testemunhas a dinâmica dos eventos, a elevada brutalidade dos espancamentos a que foi submetido o companheiro e irmão das autoras, que o levaram à morte, ora sob comando, ora sob atuação direta do requerido, na qualidade de comandante do DOI-Codi e da Oban (Operação Bandeirante)".
De uma testemunha, Laurindo Martins Junqueira Filho: "Ustra era o comandante da unidade e assistiu à minha tortura, assistiu à tortura do companheiro que estava comigo. Ele não viu o Luiz Eduardo sendo torturado, mas ele era o comandante da unidade de tortura e orientava essa tortura pessoalmente."
De outra testemunha, Leane Ferreira de Almeida: "Ouvi os gritos de Luiz Eduardo durante três dias, durante o período em que as equipes comandadas pelo major Ustra o torturaram."
Esses são alguns dos predicados de Brilhante Ustra. Há base judicial particularmente forte para chamá-lo de torturador. Não se trata, assim, apenas de uma qualificação política ou historiográfica. A Justiça o reconheceu como tal.
Voltamos, portanto, ao como. Como se restaura um mundo em que se aceita a existência de um torturador? Como um regime de exceção ressurge como alternativa política? Como se começa a minar uma democracia? Como se prepara um país para o retorno dos tiranos?
Sabendo, compreendendo, mas não se importando em dar legitimidade a uma candidatura que, por sua origem, seu fiador e suas afinidades eletivas, representa o oposto de um estado de direito. Não acredito que os empresários e as lideranças do mundo corporativo e financeiro do país que recebem Flávio Bolsonaro para jantar desejem, como desejaram seus congêneres em 1964, o fim do frágil experimento democrático brasileiro. Alguns, talvez, mas certamente não todos, nem sequer a maioria. Ainda assim, nos termos de Parul Sehgal, tomaram a decisão de desviar os olhos.
Ao como, então, vale a pena acrescentar o quem. Flávio Rocha (varejo de moda). Marcelo Kayath (mercado financeiro). André Esteves (banco de investimentos). Eduardo Bartolomeo (mineração). Eduardo Fischer (publicidade). David Feffer (papel e celulose). Roberto Campos Neto (mercado financeiro). Fernando Marques (indústria farmacêutica). Rubens Ometto (energia e infraestrutura). Emmanuel Hermann (mercado financeiro). Paulo Skaf (indústria). Luiz Carlos Trabuco (setor bancário). Fábio Barbosa (gestão empresarial e finanças). Alexandre Ostrowiecki (eletrônicos). Mario Araripe (energia renovável). Milton Maluhy Filho (setor bancário). Helio Seibel (madeira e materiais de construção). Christian Egan (mercado de capitais). Roberto Dagnoni (criptomoedas). Pedro Parente (energia e infraestrutura). Daniel Goldberg (investimentos). Fábio Ermírio de Moraes (indústria e investimentos). Fabio Carvalho (varejo e mídia). Richard Gerdau (siderurgia). Gilson Finkelsztain (setor bancário). José Galló (varejo). Fernando Simões (logística e infraestrutura). João Camargo (articulação empresarial).
Essas pessoas participaram de encontros e jantares com Flávio Bolsonaro, algumas na condição de anfitriãs. Não presumo que todas votem no candidato, embora imagine que boa parte, sim. Sei também que nem todas estavam ali........
