Nova Ordem Mundial, o mercado global e a era da IA: a incerteza, um novo normal
Nunca como hoje os mercados globais enfrentaram uma combinação tão complexa de fatores — desde tensões tarifárias a revoluções tecnológicas aceleradas e muito impulsionadas pelo advento da inteligência artificial (IA), passando por riscos geopolíticos que ameaçam redes intrincadas de comércio e investimento. A atual situação convida não apenas à análise técnica, mas também a uma reflexão profunda sobre o papel da confiança, da estabilidade e da visão de longo prazo num sistema económico que parece, hoje, alimentar-se de ansiedade e histeria.
Nos últimos meses, a economia global passou por episódios de volatilidade assinaláveis. Nos EUA, Wall Street mergulhou em território de mercado em baixa — tradicionalmente definido como uma queda de 20% ou mais em relação aos máximos — após a imposição de um novo pacote tarifário que abalou a confiança entre investidores e empresas. Índices como o S&P 500 e os principais mercados asiáticos caíram de forma verdadeiramente acentuada, num sinal evidente de aversão ao risco desencadeado por políticas protecionistas e muitas incertezas de caráter vincadamente comercial. Um sinal claro da ansiedade e da histeria especulativa que atinge os mercados globais.
É fácil perdermo-nos nos números, nos pontos percentuais de queda ou nos cenários projetados pelos modelos financeiros. Mas o que realmente está em jogo ultrapassa, em muito, um simples gráfico de uma qualquer bolsa de valores: trata-se da ligação sistémica e intrínseca entre política e atividade económica. Na prática, como as grandes decisões tomadas em determinados círculos de poder, ao nível global, se repercutem diretamente nos bolsos dos cidadãos em geral, dos investidores e, duma forma mais ampla, em todo o tecido económico. Uma simples e breve declaração do presidente norte-americano, na noite da passada segunda-feira, a partir da Flórida, dizendo que a guerra no Médio Oriente estava prestes a terminar, foi suficiente para acalmar os mercados e fazer baixar o valor de referência do barril de petróleo do patamar dos 120 para cerca de 84 dólares.
A guerra tarifária, muito utilizada por Donald Trump como um verdadeiro mecanismo de equilíbrio da balança de transações correntes entre estados, é muito mais do que um mero exercício estatístico. É, de facto, uma mensagem clara de que o statu quo — o sistema de comércio livre e internacional que alimentou décadas de crescimento, prosperidade e interdependências num mundo globalizado — pode vir a ser rapidamente substituído por lógicas protecionistas de caráter marcadamente nacionalista. No preciso momento em que as grandes economias, como a norte-americana, passam a impor barreiras alfandegárias a importações de parceiros estratégicos, o resultado acaba por se traduzir, inevitavelmente, numa retração global dos fluxos de comércio internacional e menor apetência por empreender grandes investimentos impulsionadores do crescimento económico. A consequência, essa, resume-se a um visível aumento do recurso à especulação no âmbito da atividade dos mercados, da retração de grandes fusões e aquisições, e a uma sensação verdadeiramente amarga resultante da grande incerteza e volatilidade no quadro financeiro global.
A tudo isto, junta-se a era da inteligência artificial (IA), que prometia revolucionar não apenas a tecnologia, mas também as próprias lógicas subjacentes ao tecido económico mundial. Gigantes como a NVIDIA, atualmente a maior empresa do mundo, e a OpenAI têm sido exibidas como os verdadeiros catalisadores da nova revolução industrial que já se avizinha a passos largos. Desta feita, de caraterísticas digitais indeléveis, implicando investimentos astronómicos. Mas perante estes investimentos verdadeiramente colossais — alguns a rondar as centenas de milhares de milhões de dólares em parcerias e outro tipo de compromissos — emerge uma pergunta algo desconfortável: estaremos, desta feita, a embarcar num projeto verdadeiramente sólido ou apenas a repetir erros associados às bolhas tecnológicas do passado?
Não se trata aqui de rejeitar ou pôr em causa a verdadeira importância da inovação— muito longe disso. A verdade é que a IA veio para ficar e se reveste de um enorme potencial em muitas áreas, designadamente na otimização de processos, e na geração de soluções antes completamente inimagináveis. Um verdadeiro mundo novo, pronto a ser explorado. O risco, porém, surge quando elevamos os nossos desejos, as nossas expectativas ao ponto de acreditar piamente que tais avanços tecnológicos são a tão ambicionada panaceia para todos os desafios económicos atuais – o Santo Graal – a solução para todos os males. Quando se admitem investimentos desmesurados em IA, sem antes ter visualizado as inerentes estruturas de risco e de retorno sustentável, arriscamo-nos a embarcar num novo ciclo, pouco virtuoso, de euforia seguido de choque e queda abrupta.
Visto de um outro prisma, este claro avanço tecnológico também potencia uma competição geopolítica desde há muito latente. A China, por exemplo, tem vindo a investir decisivamente no desenvolvimento acelerado de uma capacidade genuinamente sua em matéria de IA, assim como no desenvolvimento e na produção de semicondutores, de forma autónoma, e até complementar de Taiwan, mesmo numa perspetiva de uma mais do que anunciada unificação. A consumação de uma só China. Esse movimento empreendido por Pequim, está longe de ser apenas tecnológico, é muito mais do que isso: é essencialmente estratégico. Nesse sentido, tem procurado, com sucesso, reduzir ou mesmo anular a sua dependência de tecnologia estrangeira — chegando mesmo a proibir determinadas importações justamente na vertente tecnológica, em especial aquelas a que atribui um valor consistentemente estratégico. Ou seja, todos os sectores considerados de importância estratégica e, por conseguinte, vitais para a China nunca deverão depender de terceiros.
Perante tal realidade, o que mais nos deverá intrigar é a singular fragilidade daquilo que tem vindo a ser considerado de solidez inabalável: a confiança dos mercados. Quando o simples anúncio de políticas tarifárias, ou um mero vislumbre da aplicação de uma medida de caráter eminentemente protecionista pode causar tamanha turbulência no atual modelo criador da riqueza global, porventura será o momento adequado para começar a questionar o modelo que tem sido venerado e exaltado. Uma espécie de divindade: “o Mercado” que tudo regula e tudo resolve. Hoje, mais do que nunca, num mundo em que a ordem mundial criada após a II Guerra Mundial, baseada na força do direito, está a ser posta verdadeiramente em causa, e por isso mesmo, as convulsões geoestratégicas se converteram num novo quotidiano, um sistema económico verdadeiramente saudável e resiliente deverá ir claramente mais além. Muito mais do que eficiente, terá de ser resiliente, capaz de enfrentar e reagir a choques externos sem colapsar em pânico.
Muito provavelmente, a lição mais importante a reter desta difícil fase que estamos a atravessar, seja o ato de reconhecer que os mercados, em si próprios, não são máquinas previsíveis, assemelhando-se muito mais a seres vivos que carecem de acompanhamento, de apoio e de regulação. A ideia de que os mercados se auto regulam por si mesmos deve, definitivamente, ser posta em causa. Devemos encará-los mais como verdadeiros sistemas vivos, dotados de extrema complexidade, envoltos em expectativas e mais vulneráveis do que nunca aos humores e às consequentes decisões de cariz político. Enquanto se continuar a valorizar mais o curto prazo — o ganho rápido, a valorização meteórica de ativos e a promessa de tecnologias disruptivas que tudo resolvem — continuaremos muito vulneráveis a choques e desacelerações.
Basta atentar ao que está a acontecer com o grupo Volkswagen, num ano difícil em termos de lucros e que planeia cortar 50.000 postos de trabalho na Alemanha até 2030, muito além da redução de 35.000 postos de trabalho que o grupo já tinha acordado com os sindicatos no final de 2024. O diretor financeiro, Arno Antlitz, citou como razões: um "ambiente desafiador" de tensões geopolíticas, novas barreiras comerciais e intensificação da concorrência, particularmente da China.
Da mesma forma que um investidor avisado e prudente diversifica e pondera riscos, as nossas políticas económicas também devem procurar equilíbrio e visão de longo prazo — não apenas crescimento imediato e a qualquer preço.
A estabilidade global exige cooperação, diálogo e visão de longo prazo. Precisamos de construir um modelo de desenvolvimento económico futuro baseado em fundamentos sólidos e não em meras expectativas que nos podem conduzir a novas bolhas prontas a rebentar.
Ursula Von der Leyen, referiu, na terça-feira passada e com total desassombro que regressar aos combustíveis fósseis russos, na crise atual, seria um erro estratégico.
A anterior dependência do gás russo e suas consequências que nos sirvam de exemplo. Tudo o que se reveste de importância estratégica deve depender apenas de nós próprios. Quando tal não for de todo possível, devemos diversificar.
Hipotecar o nosso futuro, colocando-o nas mãos de terceiros, é, e sempre será, uma má solução.
Major General//Escreve no SAPO sempre à sexta-feira
