“Eu sou feminista”
Há frases cujo impacto não acontece pelo que dizem, mas pelo facto de ainda precisarem de ser ditas.
Na Universidade de Verão do PSD, Margarida Balseiro Lopes respondeu sem rodeios perante o tema do recém-criado movimento de Mulheres Conservadoras: “Eu sou feminista.” E acrescentou que: “enquanto uma mulher tiver de pensar na roupa que veste para sair de casa, na rua por onde pode circular em segurança ou continuar a ganhar menos do que um homem, continuarão a faltar feministas mais ativas”.
Fiquei a pensar na frase. Não por ser particularmente radical. Precisamente pelo contrário: porque deveria ser absolutamente pacífico e normal ouvir esta declaração.
Quando foi que começámos a achar estranho haver feministas no PSD? Fiz o exercício de regressar à nossa própria história.
Em 1974, Francisco Sá Carneiro escrevia que a despolitização do povo português atingia particularmente as mulheres e que os partidos tinham, por isso, de se dirigir “com mais intensidade ao eleitorado feminino”.
Não o disse para ser popular.
No primeiro Congresso do PPD, em novembro desse mesmo ano, já se discutiam a situação das mulheres e a desigualdade de direitos. E Sá Carneiro encerrava esse Congresso defendendo uma democracia que não fosse apenas política, mas também social, económica e cultural.
É nessa matriz que procuro perceber como podem ainda causar controvérsia declarações tão simples como a de Margarida Balseiro Lopes.
Porque, para a social-democracia, a liberdade nunca foi apenas a ausência de proibições. Não basta que a lei diga a uma pessoa que é livre para escolher. É preciso que existam condições económicas, sociais, culturais e educativas que tornem essa escolha verdadeiramente possível.
É aí que a liberdade deixa de ser apenas formal. E é aí que liberdade e igualdade se encontram.
E é também aí que começa, para mim, o feminismo.
O PPD que participou na construção da nossa democracia teve mulheres como Amélia de Azevedo e Helena Roseta na Assembleia Constituinte. Teve Natália Correia nas suas bancadas, uma mulher impossível de domesticar ideologicamente, para quem a emancipação feminina, a liberdade e a dignidade das mulheres foram causas permanentes.
Teve sempre Leonor Beleza.
Há poucos meses, ao receber o Prémio Elina Guimarães, Leonor Beleza falou da sua “definitiva pertença ao mundo do feminismo”. Explicou-o de forma particularmente feliz: reconhecer que a situação das mulheres tem uma dimensão cultural determinante e que devem ser as próprias mulheres protagonistas da superação das limitações que ainda enfrentam.
Leonor........
