Teodoro e os espiões de Deus
O Professor Teodoro Ramalho emergiu da sua casa na Vila Berta, à Graça, com pontualidade britânica. As varandas suspensas protegiam da branca luz de Lisboa. No passeio o cão Tejo abanava a cauda em saudação matutina. Sentado, o seu dono, lia um livro de aspecto surrado. Certamente, o único pedinte letrado em toda a cidade.
— “Bom dia, Zé Gaspar” – cumprimentou Teodoro – “que livro temos hoje?”— “É o Graham Greene, Professor Teodoro.”— “Boa escolha! Muito boa escolha” – revelou o Professor.
Pelo rabo do olho descortinou o título: O Factor Humano. Edição de 1978, da Europa-América. Saudoso Lyon de Castro e a sua colecção “Século XX”.
Era a meia-estação no universo de Teodoro. Isso fazia adivinhar a oportunidade de usar chapéu, e exibir a sua bengala de madeira rosewood, com castão derby que denotava uma pátina de décadas de cuidado. Nas suas mãos, o acessório era um metrónomo perfeito para os passeios citadinos. Era a meia-estação. Teodoro estava contente. Nada o impediria de atribuir méritos civilizacionais a esta época do ano.
— “Sabe, Zé Gaspar”, começou ele,........
