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Teodoro e os espiões de Deus

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03.03.2026

O Professor Teodoro Ramalho emergiu da sua casa na Vila Berta, à Graça, com pontualidade britânica. As varandas suspensas protegiam da branca luz de Lisboa. No passeio o cão Tejo abanava a cauda em saudação matutina. Sentado, o seu dono, lia um livro de aspecto surrado. Certamente, o único pedinte letrado em toda a cidade.

— “Bom dia, Zé Gaspar” – cumprimentou Teodoro – “que livro temos hoje?”— “É o Graham Greene, Professor Teodoro.”— “Boa escolha! Muito boa escolha” – revelou o Professor.

Pelo rabo do olho descortinou o título: O Factor Humano. Edição de 1978, da Europa-América. Saudoso Lyon de Castro e a sua colecção “Século XX”.

Era a meia-estação no universo de Teodoro. Isso fazia adivinhar a oportunidade de usar chapéu, e exibir a sua bengala de madeira rosewood, com castão derby que denotava uma pátina de décadas de cuidado. Nas suas mãos, o acessório era um metrónomo perfeito para os passeios citadinos. Era a meia-estação. Teodoro estava contente. Nada o impediria de atribuir méritos civilizacionais a esta época do ano.

— “Sabe, Zé Gaspar”, começou ele, detendo-se junto do pedinte, “Greene percebeu algo que os racionalistas nunca compreenderam.”

O pedinte ergueu os olhos.

— “Que a espionagem e o catolicismo são profissões vizinhas.”

A frase ia além da mera provocação; parecia uma avaliação. Teodor ergueu uma sobrancelha atenta. No romance, Greene sugere que tanto o agente secreto como o católico necessitam de um mecanismo semelhante: alguém que escute o que não pode ser dito em público. O espião reporta ao controlador; o fiel ajoelha-se diante do confessor. Ambos vivem sob vigilância invisível. Ambos dependem de uma instância superior que os absolva. Ambos sabem que a verdade não é pública — é sussurrada.

No entendimento do Professor Teodoro o secularismo, eliminou o confessionário e deixou o homem entregue a uma transparência insuportável. Greene, católico imperfeito e escritor lúcido, sabia que o ser humano não suporta viver sem escuta. É preciso haver escutas da alma. É preciso haver ouvintes ocultos, investidos do poder de castigar e consolar.

Teodoro ajeitou o chapéu.

— “O agente que trai um Estado por lealdade a outro não é apenas um traidor; é um crente deslocado.”

Despediu-se de Zé Gaspar com um leve toque da bengala no empedrado. Começou a subir a Rua do Sol à Graça, naquele passo cadenciado que lhe servia tanto para caminhar como para pensar. A inclinação da rua exigia-lhe fôlego. Lisboa, vista a meio da subida, parecia menos ruidosa — como se a altitude corrigisse ligeiramente a sintaxe urbana.

Teodoro apreciava subidas. No topo da rua, parou um instante. Passavam turistas atarantados, moradores com sacos do pão, crianças que arrastavam mochilas maiores que elas. A bengala tocou a calçada como se marcasse um ponto e vírgula. Virou à direita para a Pastelaria Ideal da Graça. Empurrou a porta com a naturalidade de quem entra num gabinete secundário de reflexão. O tilintar do sino anunciou-o. Pediu uma bica cheia. Sentou-se junto à janela. A chávena chegou com o seu vapor discreto. Teodoro envolveu-a com ambas as mãos, como quem segura uma hipótese. Tomou um gole.

Em O Factor Humano, o protagonista Castle procura consolo quase sacramental. Não tem igreja, mas precisa do rito. E essa necessidade revela algo perturbador: a traição cria comunhão. Há uma fraternidade obscura entre aqueles que partilham segredo. Greene já explorara esse território em O Poder e a Glória: o padre fugitivo e o informador partilham mais do que imaginam — ambos vivem da consciência da culpa. A diferença é apenas de destinatário.

Teodoro acredita que um homem sem segredo é um homem sem pertença. E aqui o Professor permitir-se-ia convocar Søren Kierkegaard: o mais solitário dos homens não é o que guarda um segredo — é o que não tem a quem o confiar. Somos “espiões de Deus”, sussurra Teodoro, recordando a advertência misteriosa de William Shakespeare em King Lear: “let us be God’s spies”. Ser espiões de Deus — observar o mundo desde a prisão, cantar como pássaros engaiolados, conscientes de que a vigilância pode ser também uma forma de redenção.

Teodoro levantou-se devagar, ajeitou o chapéu e deixou a moeda exacta no pires — gesto de precisão quase moral. Saiu para a luz de Lisboa. Acendeu o charuto Montecristo... e lançou o diagnóstico:

— O mundo está mal pontuado. Aboliu o confessionário e multiplicou os microfones. Falta vírgula ao mundo.


© Sapo