menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Teodoro e os Bobos Modernos

26 0
08.09.2026

O Professor Teodoro Ramalho estava posto em remansos domésticos, na Vila Berta, na sua poltrona de pele já gasta nos braços, quando decidiu acender o charuto da tarde. Lá fora, as escadinhas desciam em degraus pintados — azul, amarelo, rosa velado — até ao ruído distante da Graça. Lá dentro, os livros amontoavam-se em pilhas de precário equilíbrio, e a bengala de madeira rosewood, com castão derby, repousava encostada ao braço da poltrona, como um cão fiel.

Foi então que reparou na sombra sentada junto à janela.

Magro, de olhar febril, mãos inquietas de quem pensa e repensa um argumento.

— Monsieur Pascal — disse Teodoro, sem grande espanto. Em sua casa, as visitas raramente respeitavam os séculos.

— Vous me connaissez — disse Pascal, com aquela cortesia seca dos jansenistas.

— Conheço-o dos Pensées. E de uma frase que nunca mais me largou: a de que todos os males do homem vêm de não saber ficar sossegado num quarto.

Pascal deu um sorriso curto, quase um erro de cálculo.

— Divertissement........

© Sapo