Teodoro e as nesgas de Tejo
O Professor Teodoro Ramalho desconfiava das cidades que precisavam de guias turísticos. Lisboa, felizmente, nunca precisara. Bastava-lhe um poeta, um fadista e meia dúzia de velhas que soubessem dizer onde ficava determinada rua.
Nessa tarde, saiu da Vila Berta sem destino. Levava o chapéu, a bengala de madeira rosewood e cabo derby e aquela disposição melancólica de passear sem rumo. Tinha por Lisboa uma afeição que não confessava facilmente. As cidades, como certas pessoas, perdiam alguma dignidade quando se lhes declarava amor em voz alta.
Preferia observá-la. As rosas das tapadas, sobretudo as que cresciam sem dono. Os pombos vadios, diplomatas cínicos da cidade. As fachadas que o tempo ia desbotando sem pedir licença à Câmara. As roupas nas varandas. As escadarias, as esplanadas, as praças. E as coisas inúteis que ainda escapavam à otimização. Como as nesgas de Tejo. Elas subiam das regiões primitivas da terra. Dos labirintos........
