Teodoro e a madrugada adiada
O Professor Teodoro Ramalho saiu da Vila Berta ao entardecer. Lisboa perdia-se naquela ternura de semear luz debaixo dos candeeiros das vielas. Lá ao fundo o cais anoitecia. Teodoro costurou pela Rua da Verónica, bengala de madeira rosewood e castão derby, apontada ao Jardim da Graça. Aí virou para a Travessa das Mónicas.
No número 57 morava Sophia. Teodoro sempre desconfiara de que certas casas guardavam uma vida própria, como se as paredes conservassem alguma coisa dos que por ali tinham passado. Sophia sabia-o melhor do que ninguém.
"Há sempre um deus fantástico nas Casas Em que eu vivo, e em volta dos meus passos Eu sinto os grandes anjos cujas asas Contêm todo o vento dos espaços."
Foi encontrar a poetisa junto à janela aberta sobre o jardim e os telhados de Lisboa. Entre os dedos o cigarro habitual. Um bule de chá repousava por perto. O rio era ‘um puro instante azul na noite, cheio de escamas’. Teodoro esgueirou os olhos........
