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Quem semeia abrolhos, colhe espinhos

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18.04.2026

A Europa estava a precisar de uma boa notícia. Chegou no passado domingo e com estrondo. Viktor Órban, percursor do populismo iliberal nacionalista europeu e “rato” do Kremlin em Bruxelas, sofreu uma pesada derrota nas eleições húngaras, caindo de mais de 54% dos votos para menos de 40%.

Um populista tem de ser popular e Órban deixou de o ser. Por vários motivos. O marasmo económico – o PIB cresceu em média 0,2% entre 2023 e 2025, contra 1% da UE e 2% de Portugal – a elevada taxa de desemprego e a perda de poder de compra dos húngaros foram decisivos. O compadrio com a sua rede de leais oligarcas e a corrupção – a mais alta da UE segundo a Transparência Internacional – minaram a confiança. A captura dos tribunais e dos meios de comunicação social pelo Fidesz. Bandeiras usadas por Péter Magyar, o antigo admirador que se tornou a némesis de Órban e que terá agora de desmontar o sistema criado pelo antecessor.

A vitória do TISZA (acrónimo de Respeito e Liberdade e nome do segundo maior rio do país) levou o forint a disparar contra o euro. Valoriza 7,2% no último mês. O prémio de risco do país baixou, o investimento estrangeiro poderá acelerar e há 35 mil milhões de euros em fundos e empréstimos europeus que Bruxelas deverá libertar.

No verso da moeda deste otimismo vemos o fracasso do modelo económico do populismo iliberal de Órban.

É uma pesada derrota para Vladimir Putin, que perdeu o seu cavalo de Tróia dentro do Conselho Europeu. A dependência energética da Rússia será, no entanto, um desafio difícil de gerir para Péter Magyar.

É também uma derrota para o Presidente dos EUA, que enviou o seu vice para um comício ao lado de Órban, não fosse ele uma figura de culto do movimento MAGA. É duvidoso que a visita de JD Vance tenha ajudado o líder do Fidesz. Donald Trump tornou-se tóxico para os políticos europeus, mesmo os da direita radical.

Isso ajuda a explicar o distanciamento e rejeição a que o Presidente dos EUA tem sido votado pela generalidade dos líderes europeus a propósito da guerra no Médio Oriente. De Madrid a Berlim, ninguém lhe passa cartão. Até Giorgia Meloni o ‘cancelou’. Depois de ter perdido um referendo nacional sobre a reforma do sistema judicial em março, a primeira-ministra italiana precisa de ganhar fôlego político para as eleições do próximo ano. Com os italianos a sentirem no bolso o efeito do ataque ao Irão, o distanciamento ou mesmo a crítica implícita – Meloni defendeu o Papa Leão XIV contra Trump – é a forma de ganhar votos. “Estou chocado com ela. Achei que ela tinha coragem, mas enganei-me”, reagiu o líder americano.

Trump só pode culpar-se a si próprio. São já várias as humilhações a que sujeitou a Europa, desde a forma como a relegou para terceiro plano nas negociações sobre a guerra na Ucrânia às ameaças de anexação da Gronelândia. O Artigo 5.º do Tratado da NATO parece já só valer no papel. Agora quer a colaboração europeia num conflito em que esta não foi tida nem achada, mas em que se vê forçada a pagar a fatura de um novo surto inflacionista. Como diz o ditado, “quem semeia abrolhos, colhe espinhos”.

Salvam-se as relações comerciais entre os dois blocos, que continuam fortes apesar de tantas diatribes.


© Sapo