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Tempestades na Economia Phygital

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19.03.2026

Durante décadas, tratámos as tempestades como meros episódios meteorológicos. Hoje, essa leitura é insuficiente — e economicamente errada.

Os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceções. São mais frequentes, mais intensos e, sobretudo, mais disruptivos. Uma tempestade já não termina quando o vento acalma — é aí que começa o verdadeiro impacto económico.

Esse impacto manifesta-se em vários níveis. Em primeiro lugar, surgem os efeitos diretos: destruição de infraestruturas, danos em habitações e ativos empresariais, perdas na agricultura e interrupções imediatas na produção. Seguem-se os impactos indiretos, menos visíveis mas igualmente relevantes: perturbações nas cadeias de abastecimento, aumento de preços de alimentos e energia, redução da atividade económica e impactos no emprego e rendimento. Estes efeitos acumulam-se e traduzem-se, inevitavelmente, em consequências macroeconómicas: menor crescimento do PIB, pressões inflacionárias, aumento da despesa pública e maior exposição do sistema financeiro ao risco.

Segundo o World Economic Forum, os eventos climáticos extremos constituem o principal risco global no horizonte de dez anos. Mais relevante ainda é a sua interligação com outros riscos — crises alimentares, escassez de água, instabilidade económica — que amplificam os seus efeitos. O risco climático deixou de ser isolado para se tornar estrutural.

Mais do que os impactos diretos, importa reconhecer os efeitos de contágio. Numa economia global interdependente, os choques não permanecem localizados: propagam-se através das cadeias de valor, do comércio e do sistema financeiro. Eventos extremos em diferentes geografias podem ocorrer em simultâneo, amplificando efeitos e tornando-os mais difíceis de absorver. O que começa como um fenómeno físico transforma-se, assim, num risco económico global.

Portugal não está à margem desta realidade, sendo particularmente vulnerável a eventos como incêndios, secas, ondas de calor, cheias e tempestades, já com consequências económicas evidentes.

Neste contexto, emerge a economia phygital. Ao integrar o mundo físico e o digital, abre novas possibilidades na antecipação e gestão de riscos. Sistemas de previsão mais avançados, infraestruturas inteligentes e cadeias de abastecimento digitalizadas permitem respostas mais rápidas e maior continuidade da atividade económica, reduzindo a vulnerabilidade a choques extremos. Mas a tecnologia, por si só, não é suficiente.

O papel das políticas públicas torna-se decisivo. O investimento em infraestruturas resilientes, o reforço do planeamento territorial e dos sistemas de alerta precoce, bem como o desenvolvimento de instrumentos económicos — como seguros e incentivos à adaptação — são fundamentais para reduzir perdas e melhorar a capacidade de resposta. Ao mesmo tempo, a integração do risco climático na regulação financeira reflete uma mudança estrutural: deixou de ser apenas um problema ambiental para se tornar uma questão central de estabilidade económica.

Ignorar esta realidade é tão perigoso quanto ignorar as próprias tempestades.

Responder aos eventos extremos não é apenas proteger — é transformar. As economias que melhor anteciparem, se adaptarem e alinharem políticas com esta nova realidade serão mais resilientes e mais competitivas.

A questão já não é se as tempestades vão afetar a economia. A questão é como a economia — cada vez mais phygital — será capaz de prosperar num mundo de incerteza climática.

 Presidente da DRCA, Ordem dos Economistas. Professora Catedrática na Universidade Aberta. DINÂMIA’CET

O “Quadrado Perfeito” não é só uma análise técnica, feita por quatro economistas de diferentes regiões do país, que se revezam semanalmente, à quarta-feira. É uma narrativa que revela nuances regionais tantas vezes ignoradas para uma compreensão integral da economia.


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