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Michelle, não existe submissão saudável: existe submissão como projeto político

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02.07.2026

Michelle Bolsonaro declarou que a “submissão saudável” da mulher ao homem seria desejável, gerando debate político.

A fala, feita em discurso público, foi interpretada como parte de um projeto que reforça o poder masculino.

Analistas dizem que ela usa sua imagem, fé e papel materno para influenciar outras mulheres, mas as exclui de decisões estratégicas.

O caso ilustra como mulheres que sustentam discursos conservadores ainda são marginalizadas ao buscar poder nas esferas de decisão.

Há frases que voltam para cobrar seu preço político. Quando Michelle Bolsonaro defendeu a ideia de uma “submissão saudável” da mulher em relação ao homem, ela não estava apenas fazendo uma declaração religiosa ou moral sobre casamento. Estava oferecendo uma gramática política.

A mulher pode aparecer, mobilizar, discursar, emocionar, organizar outras mulheres e até se tornar indispensável, desde que continue cabendo no lugar de auxiliar. Desde que não dispute o comando. Desde que não atravesse a fronteira entre apoiar o poder masculino e desejar poder próprio.

O problema é que a política real não costuma tratar como parceira a mulher que aceita ser apresentada como auxiliar. Ela a usa. Usa sua voz, sua imagem, sua fé, sua capacidade de falar com outras mulheres, sua presença maternal, sua feminilidade domesticada. Depois, quando essa mulher ousa disputar decisão, território, estratégia e poder, o sistema revela o que sempre pensou dela: você era útil no palanque, não na mesa onde se decide.

É nesse ponto que o caso Michelle Bolsonaro se torna maior do que Michelle Bolsonaro.

A ex-primeira-dama não é uma personagem progressista. Não representa a agenda feminista. Ao contrário, construiu parte relevante de sua imagem pública combatendo feministas, parlamentares de esquerda e pautas históricas do movimento de mulheres. Mas é justamente por isso que esse episódio precisa ser olhado com atenção.

A violência política de gênero não começa a existir apenas quando a vítima pensa como nós. Quando uma mulher é diminuída, desautorizada, isolada ou empurrada para fora das decisões por ser mulher, isso interessa a todas nós, inclusive quando essa mulher ajudou a sustentar discursos que limitam a liberdade de outras mulheres.

Michelle Bolsonaro se tornou um ativo eleitoral importante para a direita. Ela fala com um público que Jair Bolsonaro e seus filhos não alcançam da mesma forma. Ela mobiliza mulheres evangélicas, mulheres conservadoras, mulheres que talvez não se sintam representadas pelo feminismo, mas que reconhecem nela uma figura de identificação.

Sua imagem foi usada para suavizar a brutalidade política do bolsonarismo, para dar aparência de cuidado a um projeto marcado pela agressividade, para apresentar uma face feminina a uma direita profundamente masculina em seus métodos, em suas prioridades e em sua lógica de poder.

Mas a pergunta é: até onde essa mulher........

© Revista Fórum