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Manchete manchada

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Brasil tinha quase 20 jornais impressos no Rio dos anos 1940, apesar de mais de metade da população ser analfabeta.

Hoje, com 95% da população alfabetizada, o interesse pela grande imprensa diminuiu significativamente.

O autor critica que donos de jornais, rádios e TVs não melhoraram qualidade quando perceberam a queda de público, optando por demissões, fechamento de sucursais e aumento de preços.

A matéria aponta práticas como manchetes enganosas, uso de QR Codes para информаções básicas e omissão de detalhes como fatores que afastam leitores.

Mistérios do Brasil. Nos anos 1940, mais da metade da população era analfabeta. Mesmo assim, o Rio de Janeiro, a capital federal naquele tempo, tinha quase vinte jornais impressos. O país de analfabetos era também uma pátria de leitores.

86 anos depois, 95% da população é alfabetizada, mas o interesse pela grande imprensa diminuiu.

Não faz muito tempo, toda sala de espera tinha o jornal do dia. O mesmo para barbearia, oficina, padaria. Alguns comerciantes até prendiam o jornal em um pedaço de madeira. A regra era: leia, mas não leve embora.

Aqui em casa, eu cortava com tesoura algumas reportagens para ler quando desse tempo. Muitas vezes, depois de ler e reler, dava de presente ao vizinho, que também retribuía.

É claro que o mundo se transformou, a forma de leitura também e isso tem inúmeras vantagens. Porém, depois de trinta e cinco anos escrevendo notícias, tenho um palpite para a crise da grande imprensa: Os donos de boa parte de jornais, rádios e tevês assistiram a qualidade despencar de braços cruzados.

Quando a carne encalha, o dono do açougue diminui o preço, melhora o atendimento, procura a picanha mais macia para oferecer à clientela… Já a grande imprensa fez o oposto. Demitiu, fechou sucursais, achatou salários e ainda aumentou os preços. E o mais triste: nos últimos tempos mudou a forma de apresentar as notícias.

Algum “esperto” descobriu que dar a informação pela metade nas manchetes “prende” o público. Será?

Um grande jornal noticiou na primeira página nesta terça-feira: “Cozinheiros relatam rotina de socos em restaurante número 1”. Fiquei curioso, fui até a página 26 e descobri que as brigas aconteceram na Dinamarca. Faz sentido uma briga de cozinheiros da Dinamarca, que aconteceu há 12, 15 anos, estar na primeira página de um jornal brasileiro, mesmo sendo o “restaurante número 1”?

O fato de omitir da manchete onde foi a briga desinforma o leitor, que talvez não se interessasse pelo fato se soubesse que se tratava de um caso antigo e distante.

Com notícia não se brinca. Ninguém gosta de ser enganado.

Num site de esportes, a enigmática manchete sobre as Paralimpíadas de Inverno é: “Aline Rocha celebra melhor resultado de uma brasileira”. A gente tem o direito de saber se a atleta ganhou medalha, que prova disputou, mas só terá a informação se der o tal clique, assistir o comercial e abrir o texto. Podemos dar um monte de nomes para essa manobra, menos dizer que é jornalismo.

Agora, a TV. Em um dos telejornais de maior audiência do país, o assunto era a convocação da seleção brasileira. O apresentador começou a ler o texto e depois anunciou, sorridente: para ver a lista completa dos convocados basta acessar o QR Code.

Como assim? O telejornal convidou o público a trocar de tela e de canal? Qual o sentido disso? E o mais grave: quem esperou para conhecer a lista de convocados, mas não acessou o QR Code, até hoje não sabe quem são os jogadores. Por que não fazer o “feijão com arroz” e dar a informação completa?

Sempre achei digno e elegante quando um jornal cita o outro. Esta semana, o Estadão foi parar em um editorial da Folha de São Paulo, que escreveu mais ou menos o seguinte: …reportagem do Estadão revelou um excesso de ações trabalhistas, muitas delas sem sentido. Empregados movem uma avalanche de processos contra seus patrões, isso consome tempo demais, dinheiro em excesso, é ruim para as empresas, para o país…

Nem a Fiesp seria tão veemente.

É claro que se o trabalhador se sentiu injustiçado, se foi demitido sem motivo, tem direito de procurar a justiça, que é paga por todos nós e deve aplicar a lei.

Ao escolher o lado do patrão, a grande imprensa perde o melhor e mais fiel de seus parceiros: o leitor.

*Luis Cosme Pinto é autor de “Acabou, mas continua”, da editora Cachalote.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


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