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Por que a classe média defende os super-ricos e tem pavor de impostos? A psicologia explica

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16.08.2026

Jen Cole Wright, professora de Psicologia do College of Charleston, analisa o paradoxo em que a população condena a concentração de riqueza mas resiste a impostos sobre super‑ricos.

Ela afirma que a deferência aos muito ricos decorre de um mecanismo psicológico que transforma a riqueza extrema em recompensa individual.

O caso de Elon Musk exemplifica a combinação de riqueza, controle de empresas estratégicas, influência no debate público e domínio de plataformas, padrão também presente em outras fortunas.

Wright destaca que a concentração de riqueza gera danos difusos, enquanto a criação de novos impostos é percebida como perda imediata, provocando resistência emocional.

Ainda pouco problematizada, especialmente no Brasil, a riqueza extrema costuma ser entendida por boa parte das pessoas como uma espécie de recompensa individual. Conforme essa compreensão, pode ser resultado de fatores como um talento quase único, da disposição para correr riscos e/ou de um trabalho ou descoberta excepcional. Algo ligado ao mérito e que serviria de exemplo, não admitindo muitos questionamentos, mas sim louvação. Contudo, quando uma fortuna alcança uma escala capaz de influenciar eleições, moldar o debate público e controlar empresas estratégicas ou plataformas de comunicação, a discussão passa a envolver relações de poder e a própria noção de democracia.

“Nossa deferência [aos muito ricos] geralmente não é comprada diretamente, mas capturada por meio de um mecanismo psicológico”, afirma a professora de Psicologia no College of Charleston Jen Cole Wright. Pesquisadora da área de psicologia moral, ela é autora de quatro livros e tem mais de 50 artigos publicados, sendo que o mais recente trata do paradoxo moral entre as pessoas que condenam essa acumulação extrema de recursos mas mesmo assim relutam em apoiar que os super-ricos sejam taxados.

O caso de Elon Musk ajuda a dar forma concreta a esse paradoxo. Para Wright, ele combina, de modo particularmente visível, “riqueza, propriedade de empresas estratégicas, influência sobre o debate público e controle de uma plataforma”, elementos que, em geral, também estão disponíveis para outras pessoas muito ricas, ainda que de maneira menos explícita. A imagem do empresário como alguém que “se fez sozinho” encobre, segundo ela, a infraestrutura coletiva que permite a formação de grandes fortunas: dados e informações de pesquisas públicas, legislação favorável, sistemas financeiros e, em muitos casos, contratos com governos, empréstimos e subsídios estatais.

Mesmo quando existe a percepção de que a desigualdade é injusta, este sentimento não se transforma automaticamente em apoio político à taxação dos super-ricos ou à priorização de medidas de redistribuição de renda. Wright explica que os danos causados pela concentração de riqueza são difusos, graduais e difíceis de associar a uma vítima específica. “Não é que as pessoas não vivenciem a pobreza de forma direta e concreta; é que elas não conseguem vivenciar diretamente as causas de sua pobreza”, diz.

Já a criação de um novo imposto, por exemplo, é percebida como uma perda individual, imediata e emocionalmente mobilizadora, mesmo se direcionado a quem dispõe de muitos recursos. “(…) não é que as pessoas considerem o dano coletivo pouco importante. Quando perguntadas diretamente, elas muitas vezes dirão que ele é muito grave. O ponto é que considerar algo grave e sentir-se emocionalmente mobilizado a agir são duas coisas diferentes — e o dano difuso frequentemente perde na segunda dimensão, mesmo quando vence na primeira”, explica.

Em entrevista concedida por e-mail, Wright analisa como crenças na meritocracia, na liberdade individual e em um “mundo justo” ajudam a sustentar hierarquias sociais profundas. Ela ressalva que o desejo de liberdade é um valor moral real, e não apenas uma desculpa para o interesse próprio, mas alerta para o desequilíbrio atual. “Está se tornando abundantemente claro que simplesmente permitir que as pessoas acumulem riqueza contribui diretamente para níveis maiores de desigualdade e para o empobrecimento da maioria.”

Confira a íntegra da entrevista a seguir.

Elon Musk é um caso particularmente visível porque reúne riqueza imensa, propriedade de empresas estratégicas, influência no debate público e controle de uma grande plataforma de........

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