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A classe política brasileira precisa ler Giuliano da Empoli

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03.03.2026

Giuliano da Empoli, escritor ítalo-suíço radicado em Paris, tornou-se referência para líderes europeus como Macron e Mette Frederiksen ao analisar o rise dos movimentos populistas.

Sua obra "Os Engenheiros do Caos" (2019, Brasil em 2020) dedicou um capítulo inteiro ao Brasil, antecipando e analisando o fenômeno Bolsonaro com base em técnicas já usadas por Salvini e Trump.

O autor argumenta que uma nova geração de líderes não apenas desrespeita, mas reativamente ignora as regras democráticas como estratégia central de poder, transformando a política em arena de predação.

Especialistas apontam que a classe política brasileira insiste em ignorar essas análises, operando com métodos de 2002 sem a profundidade analítica necessária para enfrentar esse novo cenário.

Não é apenas impressão sua. A política verdadeiramente se tornou um ringue de vale-tudo. De fora do ringue, observando os contendores, está um escritor e ensaísta ítalo-suíço que se tornou o manual de sobrevivência (e de autocrítica) para líderes europeus. Enquanto o Brasil observa sua própria arena de predadores, ignorar as lições de Giuliano da Empoli pode ser o luxo que a classe política nacional não pode mais pagar.

Por décadas, a política brasileira se acostumou a um certo tipo de manual. Seja o pragmatismo fisiológico do “toma lá, dá cá”, seja a crença na capacidade das instituições de, no fim, acharem um equilíbrio. Mas e se o tabuleiro tiver virado? E se as regras do jogo não forem apenas desrespeitadas, mas simplesmente ignoradas por uma nova geração de líderes para quem a política não é um serviço público, mas sim uma arena de predação?

Essa é a pergunta que atormenta os corredores do poder em Paris, Copenhague e Bruxelas. E a resposta tem sido buscada nas obras de um homem: Giuliano da Empoli. Enquanto presidentes e primeiros-ministros europeus devoram seus livros e o convidam para compor suas comitivas, uma pergunta incômoda ecoa nos trópicos: por que a classe política brasileira insiste em ignorar o fenômeno que já se tornou leitura obrigatória para quem precisa entender (e sobreviver) ao poder no século XXI?

“Os Engenheiros do Caos” e a lição brasileira

Antes de se consagrar com “O Mago do Kremlin” e “A Hora do Predador”, Giuliano da Empoli escreveu uma obra que deveria ser leitura obrigatória nos diretórios acadêmicos e nos gabinetes de Brasília: “Os Engenheiros do Caos”. Publicado originalmente em 2019, o livro chegou ao Brasil em 2020 e traz uma análise cirúrgica sobre como a política contemporânea foi sequestrada por uma nova geração de líderes que não apenas rejeitam as regras do jogo democrático, mas as subvertem como estratégia central de poder.

O que torna “Os Engenheiros do Caos” particularmente desconfortável para a classe política brasileira é o fato de que Da Empoli, ao descrever o mecanismo dessa engenharia do mal, dedica um capítulo inteiro ao Brasil. Nele, o autor dissecou com impressionante antecedência o fenômeno Jair Bolsonaro e as consequências dessa ascensão. Mais do que isso: explicou, com a frieza de um entomologista, como as mesmas técnicas utilizadas por Matteo Salvini na Itália, por Donald Trump nos Estados Unidos e pelos líderes do Brexit na Inglaterra encontraram solo fértil por aqui.

Da Empoli não se limitou a analisar Bolsonaro como um fenômeno isolado. Ele foi buscar as raízes do processo: a ascensão de Olavo de Carvalho como guru intelectual de uma geração que se sentia órfã de representação, o antipetismo como catalisador de energias difusas, e – talvez o mais importante – a percepção de que o establishment político brasileiro havia perdido completamente a capacidade de dialogar com o eleitor comum.

O fim do manual de boas maneiras

O que faz a leitura de Da Empoli urgente para um político brasileiro não é o manual de como vencer eleições, mas um guia de como entender a nova natureza do adversário. Durante anos, a política brasileira orbitou em torno de centros definidos: o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, a grande mídia. Os conflitos, por mais acirrados que fossem, se davam dentro de um perímetro conhecido. Havia um certo “código de guerra” não escrito.

Da Empoli argumenta que essa era acabou. Os novos líderes globais não jogam xadrez; eles viram o tabuleiro. Em “Os Engenheiros do Caos”, ele mostra como figuras como Steve Bannon entenderam antes de todos que a política tradicional, baseada em propostas e programas, havia sido substituída por uma política de identidade, emoção e, acima de tudo, caos. A ideia não é construir pontes, mas dinamitá-las. Não é propor soluções, mas explorar fraturas.

Para um Brasil que vivenciou nos últimos anos tentativas de ruptura institucional, ataques sistemáticos ao sistema eleitoral e uma erosão da confiança nas instituições, a obra de Da Empoli funciona como um espelho. Ela explica que não se trata de “não entender as regras”, mas de rejeitá-las ativamente como forma de poder. É a política como performance, onde a brutalidade gera engajamento e a moderação é confundida com fraqueza.

A armadilha da normalidade

Um dos maiores méritos de Da Empoli é sua recusa em demonizar seus objetos de estudo. Como ele mesmo afirma, seu objetivo é “entrar na mente dos vilões”, não simplesmente estigmatizá-los. Essa abordagem, que beira a frieza clínica, é o que falta no debate brasileiro. Aqui, o maniqueísmo turva a razão. O adversário, sempre um alienígena, um monstro, alguém que age movido por uma maldade inata, não se torna objeto de estudo, mas de repulsa. Isso impede que se compreenda a mecânica de seu sucesso.

Ao ler Da Empoli, o político brasileiro se depara com a desconfortável verdade de que o “engenheiro do caos” não é burro. Ele é, em muitos casos, um leitor astuto das fragilidades do sistema. Ele entende que a burocracia, o politicamente correto e a lentidão dos trâmites legais são suas maiores armas. Enquanto o establishment democrático discute comissões e pareceres, o predador age.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, que passou os últimos meses lidando com as ameaças de Trump à Groenlândia, é leitora de Da Empoli. Emmanuel Macron o leva em viagens oficiais. Eles buscam no escritor uma “inteligência coletiva” para decifrar um cenário que foge ao script tradicional. No Brasil, por outro lado, a impressão é que muitos líderes ainda operam com o script de 2002, ou pior, reagem instintivamente aos estímulos das redes sociais, sem a profundidade analítica que o momento exige.

Dois lados da mesma moeda

Da Empoli é duro com a institucionalidade europeia, que ele descreve como o oposto do “predador”. Para ele, Bruxelas, presa a tratados e regras, luta para competir num jogo de poder que é puro vale-tudo. Essa crítica soa familiar a qualquer brasileiro que acompanhe os dilemas do Estado nacional. O Estado de Direito, com suas garantias e proteções, é lento. A política de predadores é rápida, viral e cirúrgica.

Excetuando-se a extrema direita protofascista, a classe política brasileira, de diferentes espectros ideológicos, precisa aprender essa lição. Não se trata de abandonar os princípios democráticos para imitar os autocratas. Trata-se de entender a nova gramática do poder para defender o que resta do jogo limpo. É preciso aprender a comunicar com a mesma velocidade, a antecipar os movimentos com a mesma frieza e, acima de tudo, a parar de normalizar o anormal.

Da Empoli não oferece receitas. Ele não é um consultor de marketing político. Como Dr. House, da série televisiva, ele é um diagnosticador. E o diagnóstico que ele oferece à Europa é o mesmo que ecoa por aqui: vocês estão preparados para um mundo onde o adversário não quer tomar o seu lugar no tabuleiro, mas sim destruir você e o tabuleiro?

Há algo de profundamente irônico no fato de que um intelectual ítalo-suíço, radicado em Paris, tenha conseguido explicar com mais clareza do que muitos analistas locais as engrenagens que levaram Bolsonaro ao poder. Em “Os Engenheiros do Caos”, Da Empoli mostra como a política brasileira foi capturada por uma lógica de guerra cultural que já havia sido testada com sucesso em outras partes do mundo.

Ele destaca, por exemplo, o papel das redes sociais como substitutas da militância orgânica, a transformação da “antipolítica” em programa de governo e, talvez o mais importante, a incapacidade das forças tradicionais de oferecerem qualquer resistência intelectual a esse movimento. O bolsonarismo, na visão de Da Empoli, não nasceu do nada: foi a resposta a um vazio deixado por uma classe política que perdeu a capacidade de narrar o mundo.

Conselheiro dos bastidores

Há uma ironia no sucesso de Giuliano da Empoli como analista político. Filho de um ex-parlamentar que sobreviveu a um atentado terrorista, ele próprio assessorou o ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi e chegou a ocupar um escritório em Florença ao lado daquele que foi de Maquiavel. Mas recuou. Percebeu que a política real exigia um prazer pela “violência e traição” que não possuía. Optou por ser o observador, aquele que fica “um pouco à margem”, mas que está na sala onde as coisas acontecem.

É desse lugar de observador privilegiado que ele enxerga o que os protagonistas, cegos pelo calor do ringue, não conseguem. E é por isso que ler Da Empoli é um exercício de humildade e inteligência. Significa aceitar que, para defender a democracia, é preciso, paradoxalmente, compreender a mente de quem quer destruí-la.

A classe política brasileira, conhecida por seu provinciano olhar para o umbigo, insiste em ignorar essas vozes. Prefere o marketing raso, as pesquisas de opinião e o fisiologismo de sempre. Mas o mundo mudou. Os engenheiros do caos estão à espreita, e eles não leem manuais de boas maneiras. Eles leem Maquiavel. E, hoje, eles leem Giuliano da Empoli.

A pergunta que fica é: quem, no poder brasileiro, está lendo algo além de si mesmo? Pois enquanto os políticos locais continuarem ignorando as lições de quem dedicou uma vida a entender como o populismo digital engole democracias, o Brasil permanecerá condenado a repetir os mesmos erros — apenas para descobrir, tarde demais, que o manual para enfrentar os predadores já estava escrito. E estava em italiano.

*Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


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