O estrangeiro que habita em nós
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Num gesto simples, quase esquecido, mas que ainda sustenta o mundo quando o todo mais parece dividido, Lúcia Gaspar, com destreza, junto à sua bengala, pediu licença antes de se sentar. Ela tem 80 anos, é lisboeta e mora em Moscavide. No entanto, me contou, pouco antes de dar ritmo à conversa, que já havia morado em Alvalade. Sentou-se à minha mesa com a naturalidade de quem não atravessa distâncias — apenas aproximações.
Eu escrevia. Ela observava. Ficou curiosa e resolveu, com maestria, aquilo que a consumia: o que tanto aquelas mãos escreviam naquele teclado? Não perguntou o que eu fazia, nem de onde eu vinha. Perguntou-me apenas se eu conhecia Fernando Farinha. Falou-me então do Fado das Trincheiras, onde, como lembrou, o soldado na trincheira “não passa duma toupeira”. Na lembrança, tecida em pele clara, bochechas cor-de-rosa, olhar sereno e cabelos grisalhos, a sabedoria antiga se apresentava de forma interessada.
Lúcia não me falava apenas de uma música. Falava de fronteiras e das guerras. Discursava sobre........
