O choque cultural de ser brasileiro
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Brasil e Portugal, estou em um lugar privilegiado. Vivi as realidades das duas culturas e os choques que elas geram. No uso cotidiano, falar em choque cultural descreve o desconforto e a ansiedade que uma pessoa sente quando em contato com uma cultura que avalia radicalmente diferente da sua.
O busílis da questão está mais na cultura do que no choque. A palavra cultura é esquiva. Circula associada a produtos agrícolas em expressões como “cultura da soja” tanto quanto aos modos de preencher o tempo de ócio, na dobradinha “cultura e lazer”. Além disso, para muitos, cultura está associada a civilização e a um poder intelectual. Ter cultura é distinguir-se dos demais.
Já para os gregos, a cultura se relacionava à formação do ser humano por meio do conhecimento e da busca pela excelência intelectual. Isso fazia com que o ser humano quanto mais poder tinha, mais se afastava dos trabalhos manuais. O privilégio estava na atividade intelectual.
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Construir sociedades escravocratas não é, dessa perspectiva, uma atividade produtora de cultura. Ainda mais se são sociedades agrícolas ou extrativistas. Não há tempo – nem interesse – em burilar o pensamento. A cultura está sempre lá, no outro lado, junto à metrópole, onde se pensam e decidem os futuros.
À colônia cabe receber a cultura alheia e tentar adaptar-se a ela, o melhor que puder, mesmo sabendo de antemão que não é a sua cultura, não foi produzida ali, trata-se de uma tentativa condenada ao fracasso. Essa atitude educa: ensina que não se pode fazer nada sem negar quem se é e aceitar que mesmo assim ainda não se será........
