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As ciências sociais e a guerra

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02.04.2026

Para as pessoas afectadas pelo catastrófico comboio de desastres que se multiplicam pelos nossos dias, a imagem de alguém preso no telhado de um edifício, eventualmente da sua habitação, enquanto uma enxurrada leva tudo à frente lá em baixo, pode ajudar a descrever a posição de impotência com que nos deparamos hoje. Uma aparente impotência de espectadores globais diante de destruição após destruição, quer causada pela natureza, em fenómenos climáticos cada vez mais extremos, quer pelo belicismo crescente e múltiplo.

Esse sentimento de impotência tem, obviamente, diferentes níveis. Haverá os espectadores ao longe, aqueles a quem a força das imagens de destruição também tem destruído a capacidade de os impressionar, de os comover, de os indignar. E haverá os condenados e condenadas de hoje, a quem a destruição entra pelas casas adentro, de diferentes idades, géneros, credos, memórias vividas e sonhos que terão, muito provavelmente, só a forma de pesadelo nos dias que virão, se sobreviverem.

Aos primeiros espectadores do espectáculo quotidiano, nos media e nas redes, a excepção-tornada-regra do absurdo belicista leva cada vez mais longe os limites do impensável e do aceitável. Aos segundos, espectadores in loco da loucura, esse absurdo é o limite último dos seus percursos no mundo. A ambos não é pedida –​ ou, pelo menos, não pode ser exigida – uma postura crítica constante e marcada na prática das suas acções, na qual, entre indiferença e desespero, pouco mais há-de sobrar. Mas para aqueles que fazem da sua prática diária a ciência – especialmente aquela que tem como objecto de estudo o social –, essa postura é mais do que legitimamente pedida, é exigível, é necessária.

Um dos principais exemplos de um conjunto de cientistas sociais que atenderam de forma resoluta a essa exigência encontra-se na chamada Escola de Frankfurt e na sua teoria social crítica. É precisamente na ressaca de outro comboio de desastres, a Primeira Guerra Mundial, que nomes como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Walter Benjamin e o próprio Jürgen Habermas, falecido este ano, se dedicaram ao estudo da compreensão do aparente absurdo racional do seu tempo: duas guerras mundiais, separadas por meras décadas. O seu trabalho, após terem testemunhado não um, mas dois eventos globais de chacina extrema, é, não raras vezes, caracterizado por um pessimismo estrutural, porventura marcado pelo encontro de frente com a barbárie. A linha condutora e comum desse trabalho olha também de frente os ideais do Iluminismo e da razão e questiona como é possível terem falhado tão drasticamente e produzido não progresso social, mas uma máquina industrial de matança. Sem poder escapar à excessiva simplificação, uma das suas principais conclusões resume-se ao seguinte: a razão não foi substituída por uma loucura generalizada que tomou de assalto os líderes das principais potências, mas antes foi reduzida a uma forma ultra empobrecida, que eles designaram de racionalidade instrumental.

Dentro deste tipo de racionalidade, foi germinando, de mãos dadas com o avanço tecnológico, uma razão que não olha aos meios para atingir fins, marcada por um calculismo e por uma obsessão com a eficiência e até com a volúpia de controlar a natureza não-humana, elevando o humano sobre ela. Um aparente não-lugar da razão onde a ética e a reflexão crítica não têm lugar. É neste eclipse da razão, como o designou Horkheimer, que Hannah Arendt, pensadora incontornável desse tempo, encontra o nascimento da banalidade do mal.

Num recente relatório, o Transnational Institute (TNI) expõe “como as universidades estão inseridas no regime de fronteiras da UE, impulsionando a militarização, vigilância e externalização do controlo migratório”, tendo recebido mais de 100 milhões de euros em financiamento para projectos de investigação ligados a dados biométricos, vigilância, IA, drones e outros sistemas automatizados, assistindo à actividade da altamente controversa Frontex. Fazendo uma rápida pesquisa, que nem precisa de ser aprofundada, encontramos uma enorme quantidade de projectos científicos directamente ligados ao complexo militar-industrial. Mas, se quisermos ir vasculhar os ficheiros Epstein, encontramos tais pistas no império de vigilância da Palantir e na sua figura de proa, o obscuro Peter Thiel. Um artigo académico de 2021 mostra, através da análise de 155 patentes de vigilância da Palantir, a sua capacidade abismal de estruturar o mundo social, as suas narrativas, no paralelo realidade/falsidade, cada vez mais de uma só face. Voltando à Escola de Frankfurt, Adorno designou a repetição confiante e sistemática de mentiras pelo regime nazi de “bare-faced lie”, mentira descarada. Mas elas têm cara, têm nome, têm motivos, têm racionalidade instrumental.

Sei perfeitamente a importância que a defesa adquire em contextos marcados por ciclos cada vez mais curtos de tensão e ameaças cada vez mais sofisticadas, mas também sei que neste jogo de espelhos e de sombras temos de ser capazes, enquanto cientistas sociais, de imprimir reflexão crítica baseada numa procura incessante de factos e daquilo que nos mostra a história, as suas histórias e os seus intervenientes

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Quando escrevo estas palavras, a Comissão Europeia acaba de apresentar um programa de financiamento de 115 milhões de euros para “ágil e rápida inovação em defesa”. Não me acusem de ingenuidade. Sei perfeitamente a importância que a defesa adquire em contextos marcados por ciclos cada vez mais curtos de tensão e ameaças cada vez mais sofisticadas, mas também sei que neste jogo de espelhos e de sombras temos de ser capazes, enquanto cientistas sociais, de imprimir reflexão crítica baseada numa procura incessante de factos e daquilo que nos mostra a história, as suas histórias e os seus intervenientes. Principalmente porque hoje nos deparamos, uma vez mais, com essa racionalidade instrumental que marca a máquina de guerra contemporânea. Esse comboio catastrófico passou por Gaza e deixou um genocídio pelo caminho (mesmo que não usemos a palavra, a chacina generalizada é inegável). Passa hoje em Cuba num bloqueio de violência lenta. Arrasta-nos para uma guerra que não tem outro instrumental senão o caos – veja-se o número impressionante de um milhão de deslocados no Líbano.

Discursando na sessão inaugural da conferência da Associação Europeia de Sociologia no Porto em Agosto de 2024, um outro vulto da sociologia, também recém-falecido, Michael Burawoy, respondia à sua própria questão “Porque e como devem os sociólogos/as falar da Palestina?”, dizendo que as lutas contra novos colonialismos ressoam globalmente e que uma rigorosa “abordagem histórica é necessária para compreender as narrativas concorrentes e a ligação entre as reviravoltas do passado e as possibilidades do futuro”.

Este texto não é uma epístola de moralidade sobre quem deveria fazer o quê, quando e como, enquanto cientista social. É antes uma nota carregada de incompreensão sobre o que há de tão silencioso e, já agora, tranquilo, nos tambores da guerra que não façam chegar aos ouvidos dos meus pares a indignação com o avançar das botas que pisam, dia após dia, um pouco mais para baixo, nas profundezas da desumanidade, os princípios basilares de dignidade e justiça social impressos no núcleo das várias disciplinas do saber. Se a guerra não as (co)move, a sua existência é um alvo ou já foi obliterada.


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